Maristela Basso na Crusoé: A democracia sobrevive quando ninguém mais quer enxergar?
Já não perguntamos se um candidato é íntegro. Perguntamos apenas de que lado ele está
Há algo de inquietante na política contemporânea.
Não apenas no Brasil, mas em diversas democracias do mundo, parece ocorrer uma transformação silenciosa na forma como os cidadãos escolhem seus governantes.
Durante muito tempo acreditou-se que a democracia dependia da escolha dos melhores candidatos.
Talvez isso nunca tenha sido inteiramente verdade.
As democracias sempre conviveram com líderes vaidosos, oportunistas, populistas e até moralmente questionáveis.
Ainda assim, existia uma espécie de limite invisível.
O eleitor podia perdoar um erro. Podia relevar uma falha. Podia até tolerar contradições. Mas dificilmente deixava de considerar o caráter como elemento relevante do julgamento político.
Hoje parece ocorrer algo diferente.
O caráter deixou de ser critério de escolha para se tornar instrumento de disputa.
Já não perguntamos se um candidato é íntegro.
Perguntamos apenas de que lado ele está.
Se pertence à nossa tribo política, seus defeitos tornam-se compreensíveis, suas falhas relativizadas e seus escândalos explicáveis.
Se pertence ao campo adversário, os mesmos fatos assumem proporções imperdoáveis.
O resultado é…
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