Aécio encontra um discurso para a queda
Protagonismo de Joesley Batista na agenda internacional do governo Lula endossa a narrativa do presidente nacional do PSDB sobre derrocada
Cogitado para disputar a Presidência da República pelo PSDB mais uma vez, o deputado federal Aécio Neves (MG, foto) encontrou um bom discurso para justificar a própria queda. Mas a narrativa para explicar a derrocada de quem quase governou o Brasil parece ter chegado tarde demais.
Derrotado numa campanha na qual Dilma Rousseff ludibriou o eleitorado como nunca antes, a ponto de fazer o exato oposto do que prometia na política econômica e se desgastar de tal forma que o fim de seu governo acabou antecipado por um impeachment, o presidente nacional do PSDB teve a reputação manchada por uma gravação na qual pedia dinheiro para o empresário Joesley Batista.
O ex-governador de Minas Gerais já tinha se apresentado como vítima de uma armação do controlador da J&F, mas o tempo e as cada vez mais intensas relações de Joesley com o governo Lula colaboraram para o quadro que ele traça agora na tentativa de se recuperar.
“Naquele ano de 2017, começaram as denúncias da Lava Jato, que não era contra mim, era contra o PT. Era o ‘petrolão’ tomando conta, era os diretores do banco, da Petrobras devolvendo ou assumindo o que tinham roubado e já propondo devolver. E começaram a haver denúncia de caixa dois nas campanhas eleitorais, que também não existiram. E o que ocorre? Eu não tinha como pagar sequer advogados. Coloquei um apartamento da minha família da minha mãe, já falecida, à venda, procurei meus amigos que tinham condições, estão todos vivos aí, Tasso Jereissati, que é um grande empresário, além de um extraordinário homem público, o Pedro Moreira Salles, cuja família era amiga da minha, com o presidente do Itaú Unibanco, o Robson Andrade, presidente da CNI à época, tentando vender esse apartamento, para que eu pudesse pagar advogados, porque, depois de tantos mandatos, e tão relevantes, eu não tinha como fazê-lo, e foi aí que chegou ao Joesley”, disse o deputado em entrevista ao Papo Antagonista transmitida na segunda-feira, 1º de junho.
Apartamento para Joesley?
“Minha irmã procura ele um dia, [para saber] se ele tinha interesse no apartamento. Ele pega isso, mancomunado com um membro do Ministério Público, um procurador corrupto chamado Marcelo Miller, que depois foi exonerado da Procuradoria Geral.. E o seu Joesley já havia confessado mais de 200 crimes, cento e tantos [crimes] de corrupção. Eles fazem, forjam essa gravação. Não é numa conversa. O empréstimo que ele me oferece, de 2 milhões de reais, que eu nunca recebi, nunca chegou a lugar nenhum. Ele transforma isso numa denúncia, para ser absolvido. Ele consegue, como retorno disso, a imunidade penal absoluta de todos os seus crimes, entrega ao PT a possibilidade de não me ter como adversário em 2018, e nem ao Temer, e nós éramos os dois nomes colocados, eu porque havia perdido por pouca margem as eleições anteriores e o presidente Temer porque estava no governo”, seguiu Aécio, completando:
“Nós dois fomos tirados do jogo por essa irresponsabilidade e desonestidade do senhor Batista, repito, que vem sendo recompensado com as ações do governo do PT. Portanto a Justiça compreende isso, não fui eu não tive meu inquérito anulado por uma filigrana jurídica ou para um juiz amigo, não. Eu fui julgado, eu fui absolvido por unanimidade na primeira, na segunda e confirmado na terceira instância do STJ. Por quê? Porque o seu Joesley Batista teve que depor e, ali, se ele não diz a verdade, ele teria que provar. Ele que seria sancionado, e ele disse, da forma mais cândida do mundo, depois de feito o serviço de me tirar do jogo eleitoral naquele instante, que jamais teve comigo qualquer relação imprópria, que eu jamais pedi a ele qualquer coisa, jamais houve pagamento de qualquer coisa e, com isso, os juízes me absolvem. Mas o dano político, eu reconheço, está aí. Mas felizmente o tempo permite que as coisas sejam vistas com maior clareza.”
Absolvição
O presidente do PSDB, que era senador e presidia o partido em 2017, quando as gravações com Joesley vieram a público, de fato foi inocentado definitivamente em 2023 da acusação de corrupção passiva, porque não ficou provado que ele recebeu 2 milhões de reais de propina de Joesley.
Mas a carreira política do tucano praticamente acabou por causa dessa denúncia, feita no contexto de uma delação premiada da JBS, na qual Joesley gravou uma conversa com ele no hotel Unique, em São Paulo, e outra com o então presidente Michel Temer, que quase deu fim ao seu governo.
Hoje, Aécio diz que Joesley atuou para tirar ele e Temer do páreo eleitoral de 2018, na eleição que acabou vencida por Jair Bolsonaro. Além disso, o empresário, que é apontado por ter conseguido o mais de um encontro entre Lula e Donald Trump, conseguiu imunidade penal total da Lava Jato.
Leia mais: Joesley virou chanceler?
“O verdadeiro filho do Lula”
A narrativa do tucano é favorecida pela intensa relação entre Joesley e o governo Lula — a J&F poderia ter desenvolvido uma relação parecida com um hipotético governo Aécio, em caso de vitória em 2014, mas o fato é que isso ocorreu com um governo do petista.
“O Joesley tira a mim e ao Temer [da corrida eleitoral] com duas gravações fraudulentas, com narrativas verídicas que a Justiça desmascara, e nós saímos do jogo. Sempre foi muito melhor para o PT disputar com um Bolsonaro, com o bolsonarismo, do que enfrentar a nós, que faríamos um governo inclusivo, um governo de centro, um governo democrático, um governo conectado com a sociedade, um governo pragmático na política externa, responsável no campo fiscal, tudo que o Brasil não teve, e hoje esses cidadãos são os donos do Brasil”, alegou o tucano.
“Eles internacionalizaram as suas empresas com 100% dos recursos do BNDES. Me refiro a Swift na Argentina, depois a Pilgreen nos Estados Unidos. 100% de financiamento do BNDES. Isso vem passando muito despercebido, todos aí muito mergulhados no escândalo do Master, que tem que ser apurado, e todos os responsáveis punidos exemplarmente. Mas, em 2024, o governo do presidente Lula, e essa foi a grande recompensa ao senhor Joesley Batista… Inclusive, eu afirmei outro dia e repito aqui: ele é o verdadeiro filho do Lula. A relação paternal, de pai para filho, que o Lula estabeleceu foi com ele, e agora, em 2024, o governo federal edita uma medida provisória socializando os custos da geração de energia termoelétrica na Amazônia. Com isso, viabiliza a Amazônia Energia. Quem adquire? Joesley Batista. Isso significa 14 bilhões [de reais] que o governo vai pagar para que eles tenham mais essa empresa”, seguiu o presidente do PSDB.
Quase dez anos depois de ser flagrado pedindo dinheiro para Joesley, Aécio encontrou um discurso, mas as condições para emplacá-lo são totalmente desfavoráveis, porque Lula já tem outros inimigos.
E, se os petistas admitem sentir saudade da oposição mais suave e responsável do PSDB, em ano eleitoral eles preferem os opositores mais agressivos, para dar a impressão de que são razoáveis.
Assista à entrevista completa:
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Comentários (1)
Claudemir Silvestre
02.06.2026 19:34Esse cara é um LIXO. !!!