‘Bondades’ de Lula não evitam desaceleração da economia
Analistas preveem arrefecimento do PIB brasileiro nos próximos trimestres, com crescimento entre 1,5% e 2% em 2026
A economia brasileira deve perder fôlego ao longo de 2026, após registrar desempenho acima do esperado no primeiro trimestre do ano.
Economistas de diferentes instituições financeiras e centros de pesquisa, ouvidos pela Folha, convergem para uma trajetória de queda gradual no ritmo de crescimento, pressionada pela taxa básica de juros mantida em patamar elevado, pelo conflito no Oriente Médio e pelos efeitos defasados da política monetária restritiva sobre o crédito e o consumo das famílias.
Projeções apontam para desaceleração, não recessão
As estimativas para o Produto Interno Bruto (PIB) acumulado de 2026 variam entre 1,5% e 2%, conforme levantamento com economistas de bancos, gestoras e institutos de pesquisa.
O economista-chefe do Sicredi, André Nunes de Nunes, projeta crescimento de 0,6% no segundo trimestre, reflexo do fim do impulso da safra agrícola e da persistência dos juros em nível restritivo. Para o ano, a instituição trabalha com alta de 1,9%, “com viés de alta para a casa de 2%”. “Não é recessão. Não é um dado ruim”, afirmou Nunes.
O FGV Ibre estima crescimento de 1,7%. Segundo a economista Juliana Trece, coordenadora do núcleo de contas nacionais do instituto, os trimestres à frente devem registrar resultados “próximos a zero, mas não negativos”. Para ela, a guerra no Irã tornou a perspectiva de desaceleração “ainda mais evidente”, ao elevar a pressão inflacionária e aumentar a cautela do Banco Central.
O C6 Bank também projeta 1,7% para o ano. A economista Claudia Moreno observa que o crescimento acumulado em 12 meses recuou de 3,6% para 2% entre o primeiro trimestre de 2025 e o mesmo período de 2026. “Os juros elevados continuam limitando os setores mais dependentes de crédito, mas a força do mercado de trabalho e as medidas de estímulo promovidas pelo governo, como os incentivos à concessão de crédito, têm ajudado a sustentar a economia”, disse.
Estímulos fiscais e Selic intoxicam política econômica
O cenário de curto prazo reúne forças em sentidos opostos. De um lado, programas de estímulo lançados pelo governo no início do ano sustentam a demanda. De outro, a Selic em 14,5% ao ano eleva o custo do crédito e desacelera setores intensivos em financiamento.
José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, projeta expansão de 0,5% em cada um dos três trimestres seguintes, chegando a 2% no acumulado anual. Para ele, as iniciativas de estímulo do governo podem gerar preocupação para o Banco Central, que “deverá manter cautela na política monetária”.
Roberto Padovani, economista-chefe do banco BV, compartilha essa avaliação: “Uma das histórias por trás dessa retomada são os estímulos fiscais e parafiscais, o que atua contra o mandato legal do BC. Portanto, tudo sugere juros mais elevados por mais tempo. A má notícia é que é um crescimento que talvez não seja sustentável”.
A Firjan acrescenta que a combinação entre crédito caro e demanda estimulada artificialmente ajuda a explicar a baixa taxa de investimento do país — 16,5% do PIB, abaixo da média da América Latina (19,4%), da média mundial (25,9%) e distante das economias emergentes asiáticas, que investem 37,3% do PIB.
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