Paulo R. Almeida na Crusoé: Uma legítima foto histórica e suas imitações baratas
Oito décadas depois da cena em Yalta, um dirigente autocrático e belicista quer repetir a imagem, discutindo "zonas de influência"
A foto possivelmente mais famosa da política mundial retrata três poderosos líderes, reunidos para uma última conferência diplomática, em fevereiro de 1945, em Yalta, para discutir os destinos do mundo, quase ao final da guerra.
O presidente Franklin Roosevelt e o primeiro-ministro britânico Winston Churchill sentaram-se com o ditador soviético Stalin para acertar as respectivas “zonas de influência”, na fase final da luta contra os nazistas.
A foto da conferência é icônica, representando o entendimento para a convocação de uma conferência multilateral que decidiria o formato da ONU, em substituição à frustrada Liga das Nações.
A Liga tinha sido criada em 1919, ao cabo da Grande Guerra (1914-1918), mas revelou-se incapaz de evitar a ascensão de potências revisionistas, vocacionadas à destruição da ordem existente, desejosas de instalar em seu lugar uma ordem autoritária, dominada pela preeminência indisputada de grandes potências agressivas.
Curiosamente, 81 anos depois da icônica foto, um dirigente autocrático e belicista dá evidentes demonstrações de que gostaria de ter uma nova foto, ao mesmo estilo de Yalta: três poderosos líderes da atualidade discutindo “zonas de influência”, em um mundo não mais guiado pela Carta da ONU, ou por normas elementares do Direito Internacional, apenas pela vontade das grandes potências.
O americano já deu sobejas provas de que está ansioso por uma foto tão representativa dos novos “donos do mundo” quanto aquela imortalizada em meados do século 20, podendo ser em Yalta ou em qualquer outro lugar próprio a estes tempos guiados mais pelo direito da força do que pela força do Direito.
Estou seguro de que o neoczar toparia isso de pronto e até se sentiria tão empoderado quanto o antecessor soviético.
Não creio, contudo, que o novo imperador do Meio toparia tal imitação canhestra de uma nova divisão do mundo com dois colegas que ele deve julgar extremamente rústicos do ponto de vista do confucianismo mandarinesco que ele encarna.
O Império do Meio nouvelle manière não tem nada a ver com o novo Lebensraum que o neoczar bárbaro pretende criar na Europa central, nem com o imperialismo cow-boy que o narcisista maligno gostaria de recriar a partir de uma contrafação do “corolário Roosevelt” (Theodore) à Doutrina Monroe.
Dois mil e quinhentos anos de civilização chinesa serviram para…
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