Maternidade de aluguel vira negócio na Ucrânia em guerra
Conflito armado empurra mulheres à gestação por substituição enquanto Parlamento debate restrições ao setor
O colapso econômico provocado pela guerra de Putin e a falta de regulação transformaram a Ucrânia em um dos principais destinos mundiais para casais estrangeiros que buscam gestação por substituição – a popularmente conhecida prática da “barriga de aluguel”. Ter filhos – para os outros – virou negócio.
O setor, que chegou a paralisar com o início do conflito armado, retomou volume próximo ao registrado antes da ofensiva russa — e agora enfrenta um projeto de lei no Parlamento que pode encerrar a participação de estrangeiros, responsáveis por 95% dos contratos ativos no país.
Um mercado que resistiu à guerra
Antes do início da ofensiva russa em larga escala, a Ucrânia já era considerada o segundo maior polo de gestação por substituição comercial do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.
Segundo a BBC Brasil, especialistas ouvidos pelo serviço internacional da emissora afirmam que o volume de gestações contratadas no país praticamente retornou ao patamar anterior ao conflito, apesar dos bombardeios e da instabilidade econômica.
O custo do procedimento é um fator determinante para casais estrangeiros. Enquanto nos Estados Unidos o processo pode ultrapassar 110 mil libras esterlinas, na Ucrânia o valor gira em torno de 65 mil libras — menos da metade.
Himatraj e Rajvir Bajwa, casal britânico de Londres, pagaram essa quantia à BioTexCom, maior clínica do ramo no país, em 2024. “Eles nos deram algo que nunca pensamos ser possível, nos transformaram em uma família”, afirmou Himatraj, de 37 anos.
O casal chegou a Kiev em junho do ano passado para acompanhar o nascimento do filho. Com atrasos na documentação britânica, permaneceu na capital ucraniana por três meses, atravessando alertas de ataque aéreo. “Foi assustador e surreal”, descreveu Rajvir, de 38 anos.
A decisão econômica por trás da gravidez
Karina Tarasenko, 22 anos, moradora do leste da Ucrânia, é um dos casos documentados pela BBC. Natural de Bakhmut — cidade que se tornou epicentro de combates após a ofensiva russa —, ela viu sua casa ser destruída quando ainda tinha 17 anos. Com o parceiro, mudou-se para Kiev, onde enfrentou dificuldade para encontrar trabalho estável enquanto criava a filha de um ano e meio.
A decisão de se tornar gestante por substituição veio em um momento de aperto financeiro. “No começo, a ideia de ser barriga de aluguel me revoltou e decepcionou, mas agora simplesmente aceitei”, disse Tarasenko, que, com seis meses de gestação, carrega um embrião formado com material genético de um casal chinês. Ela receberá 12,5 mil libras pelo procedimento — o equivalente a cerca de R$ 95 mil, aproximadamente o dobro do salário anual médio no país.
O valor previsto inicialmente era maior: 15,5 mil libras. A redução foi aplicada após a morte de um dos gêmeos gestados, conforme cláusula contratual. Tarasenko planeja usar o dinheiro para adquirir um imóvel e pretende repetir o procedimento. Para ela, não há conflitos éticos em questão: “Ninguém está nos forçando. Este é o meu corpo, minha decisão… Vou receber minha recompensa por dar felicidade a eles”, afirmou.
Casos de abandono e pressão por regulação
Nem todos os contratos terminam sem consequências. A BBC relatou o caso de Wei, menino hoje com cinco anos que nasceu prematuro em 2021, com graves sequelas neurológicas, em uma gestação intermediada pela BioTexCom.
Os futuros pais, oriundos de um país do Sudeste Asiático, optaram por não buscar a criança após saber de seu estado de saúde. A gestante, por sua vez, não tinha obrigação legal de assumir a guarda, conforme a legislação ucraniana. Wei vive em uma instituição estatal para crianças com deficiência em Kiev.
Albert Tochilovsky, diretor-executivo da BioTexCom, classificou a situação como uma “tragédia” e reconheceu que, quando pais abandonam uma criança, “consideramos que isso também é, em parte, nossa responsabilidade”. A clínica, no entanto, não contribui financeiramente para o custeio da instituição onde Wei está abrigado.
Valeria Soruchan, representante do Ministério da Saúde da Ucrânia, defende mudanças na legislação e afirma que “muitas” crianças nascidas por gestação por substituição são abandonadas, embora o governo não disponha de dados sistematizados sobre o tema. Ela não é contrária à prática em si, mas apoia a restrição ao acesso de estrangeiros ao serviço.
A ativista pelos direitos das mulheres Maria Dmytrieva vai além: defende a proibição total da prática. “Por causa da guerra, o número de mulheres em situação de desespero está aumentando, e as clínicas se aproveitam disso porque casais ocidentais querem comprar bebês de forma barata”, declarou.
Projeto de lei divide opiniões
O texto em análise no Parlamento ucraniano conta com amplo apoio entre os parlamentares e, se aprovado, inviabilizaria a participação de estrangeiros nos contratos — o que, na prática, afetaria a quase totalidade das operações do setor.
Defensores da proposta argumentam ainda que a taxa de natalidade ucraniana já sofre impacto direto da guerra, e que gestações voltadas a casais estrangeiros aprofundam esse quadro.
A BioTexCom, por sua vez, afirma atuar dentro da legalidade, negar as acusações de irregularidades que lhe foram imputadas e defender que sua atuação ajuda pessoas a realizarem o desejo de ter filhos, ao mesmo tempo em que oferece às mulheres acesso a renda, assistência médica, moradia e alimentação durante a gestação.
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