Lula critica violência machista com preconceito machista
Presidente fez declaração durante discurso em que atribuía exclusivamente aos homens a responsabilidade pelas agressões de gênero
“Não existe experiência de mulher bater em homem. Se batesse, ia ter tanta vergonha que ele não ia contar”, disse aos risos o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nesta sexta-feira, 8, durante evento público dedicado ao combate à violência contra a mulher.
Ao afirmar que homens agredidos por mulheres se calariam por pudor, Lula tentava ilustrar o argumento de que a violência doméstica tem origem masculina — mas o trecho ganhou outra repercussão pelas implicações que carrega.
No discurso, o presidente sustentou “o dado concreto é que a violência parte de nós os homens”. Como não é raro em falas “descontraídas” e improvisadas do presidente, o que era para ser entendido como uma crítica ao machismo violento se transformou numa fala machista que evoca o ditado “homem não chora”.
O evento integra uma série de iniciativas do governo federal voltadas ao enfrentamento da violência de gênero, agenda que a gestão ampliou na reta final do mandato, à procura do voto feminino, ainda refratário aos cortejos de Flávio Bolsonaro.
Lula sendo Lula
Não é a primeira vez que as improvisações descontraídas de Lula repercutem mal em ocasiões destinadas a defender direitos das mulheres.
Em julho de 2024, ao condenar a violência doméstica em cerimônia no Palácio do Planalto, o presidente abriu uma exceção bem-humorada para o caso de o agressor ser “corintiano”. No mês de maio daquele mesmo ano, dirigiu-se a uma beneficiária do programa Minha Casa, Minha Vida — mãe de cinco filhos — perguntando quando ela “vai fechar a porteira”.
Em março de 2024, ao falar sobre qualificação feminina no mercado de trabalho, disse que mulheres formadas não precisariam depender dos pais para comprar “batom ou calcinhas”. Já em outra ocasião, justificou a escolha de Gleisi Hoffmann para a Secretaria de Relações Institucionais dizendo ter colocado uma “mulher bonita” na articulação política para “melhorar a relação” com o Congresso.
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