Roberto Reis na Crusoé: O partido que parou no tempo
PT, que nasceu no Brasil do sindicato, da fábrica e da identidade coletiva do trabalho, não consegue falar com o empreendedor que fecha contrato no WhatsApp
O PT conversa com um Brasil que simplesmente não existe mais. Na última semana de março de 2026, Lula tentou explicar o aperto das famílias falando de gastos com pets e do consumo facilitado pelo celular. As falas viraram notícia porque soaram menos como análise econômica e mais como bronca de avô com o presente. Daquelas que só acontecem em almoço de domingo. O ponto central está aí. Lula já não descreve o cotidiano do eleitor, como fazia nas décadas passadas. Ele reclama dele.
Esse desencaixe é cultural. Primeiro: o Brasil que decide voto hoje vive com a mão no telefone, queira Lula ou não. Em 2024, a internet já estava em 94% dos domicílios do país. Em 2023, 88% dos brasileiros com 10 anos ou mais usaram a internet, e 98,8% dos usuários acessaram a rede pelo celular. Lula não tem nem celular, nunca teve.
A política entrou de vez na lógica dessa tela, do vídeo curto, da comparação instantânea, da identidade antes do programa. Lula faz discursos longos e vira alvo constante de cortes que depõem contra ele. Quando percebe, já falou a próxima besteira.
Aliás, quando Lula investe contra o celular, como faz sempre, ataca o meio pelo qual uma geração inteira trabalha, compra, conversa, se informa e forma juízo sobre o poder.
E aí há um agravante. Toda vez que um celular é roubado no Brasil, o cidadão perde tudo: lembranças afetivas, informações importantes, acesso a bancos e programas. Não há como não se lembrar das frases históricas de Lula em que diz que quem rouba um celular não é mau, está apenas querendo comprar uma cervejinha.
Ou seja, o desencaixe também é moral. E mais: o Brasil ficou…
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