A “Primeira Cidade Italiana do Brasil” por lei federal: uma vila com estilo de vida único que produz 80% do vinho do estado
A “Primeira Cidade Italiana do Brasil” em plena serra capixaba
A 80 km de Vitória, Santa Teresa guarda casarões coloridos, cantinas e uma rua de paralelepípedos que parece um vilarejo de Trento. É o ponto onde começou a grande imigração italiana ao Brasil.
A cidade onde a imigração italiana começou no Brasil
Pouca gente sabe, mas o marco zero da grande imigração italiana ao país está na serra capixaba. Em 17 de fevereiro de 1874, o navio La Sofia chegou ao porto de Vitória com 388 imigrantes vindos majoritariamente de Trento e do Vêneto, na chamada Expedição Tabacchi.
O empreendimento original em Santa Cruz não prosperou e parte das famílias aceitou a proposta do Governo do Espírito Santo para se instalar no Núcleo de Timbuhy, atual território de Santa Teresa, conforme o Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES). O documento que confirma a ocupação é um pedido de ressarcimento do colono Francesco Merlo, datado de 28 de outubro de 1874.
O reconhecimento oficial veio em 11 de janeiro de 2018, com a sanção da Lei Federal nº 13.617, que oficializa a cidade como pioneira da imigração italiana no Brasil. Em 2024, o embaixador da Itália, Alessandro Cortese, descerrou placa comemorativa reafirmando o título durante visita oficial.

Vale a pena viver na cidade mais italiana do Espírito Santo?
Para quem busca clima ameno, ar puro e um vilarejo onde 90% da população descende de italianos, sim. O dado é do Vice-Consulado Italiano no Espírito Santo e mostra a profundidade da herança trentina e vêneta na vida cotidiana, segundo registros da Prefeitura de Santa Teresa.
A herança não está só na arquitetura. Em algumas comunidades rurais ainda se ouvem expressões dos dialetos italianos trazidos no século XIX. Desde 2007, o ensino da língua italiana faz parte do currículo das escolas públicas municipais.
A economia gira em torno do agroturismo, das vinícolas e da preservação ambiental. A cidade abriga o Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), herdeiro do Museu de Biologia Mello Leitão fundado em 1949 pelo cientista Augusto Ruschi, nascido em Santa Teresa. Ruschi classificou cerca de 80% das espécies brasileiras de colibris e catalogou mais de 600 espécies de orquídeas ao longo da carreira.
O que fazer e onde comer entre vinhedos e casarões coloridos?
O centro histórico tombado em 2019 e o Circuito Caravaggio dividem o protagonismo turístico. Algumas atrações imperdíveis:
- Rua do Lazer: o coração do centro histórico reúne casarões coloridos, cantinas e bares com música ao vivo aos fins de semana, em ambiente de vila italiana.
- Praça Augusto Ruschi: cartão postal com chafariz, coreto e jardins inspirados na Europa, em homenagem ao naturalista capixaba.
- Igreja Matriz Santa Teresa d’Ávila: erguida em 1906, tem sinos doados pelo Imperador Dom Pedro II, conforme registros da paróquia local.
- Museu de Biologia Mello Leitão: sede do INMA, abriga acervo da Mata Atlântica, viveiros de aves e a varanda dos beija-flores na antiga casa de Ruschi.
- Reserva Biológica Augusto Ruschi: área de 3.600 hectares administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), criada em 1982 para preservar a Mata Atlântica serrana.
- Circuito Caravaggio: rota rural de 14 km com vinícolas, cervejarias artesanais, restaurantes e a Capela de Nossa Senhora do Caravaggio, erguida em 1912.
A gastronomia é o coração da identidade local, com receitas trentinas e vênetas mantidas há cinco gerações. Entre os destaques:
- Vinhos artesanais: a cidade responde por 80% da produção estadual, com cantinas centenárias como a Mattiello, a Valsugana e a Tabocas, onde dá para acompanhar a produção das uvas até o engarrafamento.
- Massas caseiras e agnoline: a tradição trentina aparece em cantinas familiares como Gioconda e Cantina Romanha, com receitas de família servidas há décadas.
- Polenta com molho: prato emblemático da culinária vêneta, base da alimentação dos primeiros colonos e ainda servido em cantinas e restaurantes do centro.
- Cervejas artesanais e vinhos de jabuticaba: a Cervejaria 3 Santas e a Cantina Mattiello produzem rótulos exclusivos, presentes nos cardápios do circuito gastronômico.
Quem sonha em conhecer o Espírito Santo, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Luzer On The Trip – Edivan e Camila, que conta com mais de 34 mil visualizações, onde Edivan e Camila exploram a cultura italiana e as belezas de Santa Teresa:
Quando o clima favorece cada tipo de passeio?
O clima de montanha mantém a serra capixaba amena durante todo o ano. Veja como cada estação influencia a experiência:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Festas que mantêm viva a herança trentina
O calendário cultural reúne celebrações tradicionais que atravessam gerações. A Festa do Vinho e da Uva, organizada com apoio da Secretaria de Estado do Turismo (Setur), já chegou à 25ª edição e mantém rituais como a Pisa da Uva e a Passarela da Uva pelas ruas do centro.
A Festa do Imigrante Italiano acontece entre junho e julho e celebra a chegada das primeiras famílias trentinas e vênetas. Outros eventos do calendário incluem o Festival Nostra Cultura, em outubro, a Serenata Italiana, em julho, e a Carretela Del Vin, que recria a procissão tradicional da uva colhida nas vinícolas locais.
Como chegar a Santa Teresa
O acesso a partir de Vitória é direto e leva cerca de 1h30 de carro. O percurso mais comum segue pela BR-101 até Fundão e depois pela ES-261, com paisagem serrana arborizada. Outra opção é a BR-262 seguida pela ES-080. Linhas regulares de ônibus operadas pela Viação Lírio dos Vales conectam Vitória à cidade. O aeroporto mais próximo é o de Eurico de Aguiar Salles, em Vitória.
Vá conhecer o pedaço da Itália na serra capixaba
A cidade combina três séculos de tradição trentina e vêneta, vinhos artesanais reconhecidos no estado e o ar de vilarejo europeu a poucas horas do litoral. É um dos raros pontos do Brasil onde a memória da imigração italiana segue viva no dia a dia.
Você precisa subir a serra capixaba e conhecer Santa Teresa, a cidade onde o sotaque, a uva e o pão ainda obedecem à receita trazida em 1874.
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