Márcio Coimbra na Crusoé: Terceira República Islâmica
O Irã de hoje não é mais governado por clérigos em busca do martírio, mas por generais em busca de sobrevivência
O sistema internacional, habituado a crises cíclicas no Oriente Médio, assiste a algo sem precedentes: um cessar-fogo de 14 dias entre Washington e Teerã, selado com precisão cirúrgica pelo Paquistão.
Percebam, nas entrelinhas, que o anúncio do chamado Acordo de Islamabad não é apenas um hiato nos bombardeios. É o reconhecimento formal de que a República Islâmica, tal como a conhecemos desde 1979, transmutou-se para algo radicalmente diferente.
O Irã de hoje não é mais governado por clérigos em busca do martírio, mas por generais em busca de sobrevivência.
Este desfecho, que muitos analistas românticos evitaram prever, não é surpresa. É realpolitik em estado puro.
Quando os primeiros grandes movimentos populares eclodiram nas ruas de Teerã e Mashhad meses atrás, a narrativa predominante no Ocidente era a de uma iminente “Primavera Persa“, que culminaria em uma democracia liberal e volta da monarquia.
No entanto, naquele momento, já havíamos classificado como o cenário mais provável o que hoje se confirma: a conversão do regime em uma estrutura puramente pretoriana.
Em vez de uma ruptura com o autoritarismo, assistimos ao endurecimento do “Estado profundo” iraniano, que utilizou o caos das ruas para remover o clero ineficiente e consolidar o poder sob o cano das armas.
A morte de Ali Khamenei, em fevereiro deste ano, foi o catalisador final para esse processo.
O que emergiu das cinzas do luto oficial foi a consolidação definitiva do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica como o verdadeiro senhor do Estado.
Embora Mojtaba Khamenei ocupe o trono nominal, ele governa sob a tutela férrea de figuras como Mohammad Baqir Qalibaf, presidente do Parlamento do Irã.
Entramos na era da “Terceira República Islâmica“, um regime em que a ideologia se tornou um adereço para a manutenção de privilégios econômicos.
Agora, o Ocidente não negocia mais com aiatolás messiânicos, mas com generais-empresários que gerenciam um conglomerado militar-industrial massivo e extremamente pragmático.
Esse novo pragmatismo pretoriano foi o que permitiu o cessar-fogo.
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Comentários (1)
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