Carrancas perdem função ritual e viram peça de arte
Esculturas zooantropomórficas que protegiam navegantes ganham sentido decorativo com desaparecimento de embarcações tradicionais
A carranca, escultura colocada na proa de barcas que navegavam o Rio São Francisco, transitou de objeto de proteção espiritual a peça decorativa em pouco mais de um século. Segundo Lucas Resende Moreira, pesquisador do Departamento de História da USP, essas figuras zooantropomórficas (misturas de características animais e humanas) perderam sua função mágico-ritualística entre o final dos anos 1930 e a década de 1940, quando a navegação tradicional começou a desaparecer.
As carrancas ganham denominação mais comum a partir de 1947, quando a comunidade local passa a valorizá-las como expressão artística. Segundo Moreira, “ela vai ganhar proeminência como uma figura artística, decorativa, pela comunidade, pela população em geral”. Antes disso, serviam a um propósito específico: afastar energias perigosas e proteger os barqueiros dos “encantados” presentes no folclore local — entidades como Anhangá, Mãe d’Água e Caboclo d’Água que compõem o imaginário ribeirinho.
Raízes históricas e culturais
As figuras de proa, das quais derivam as carrancas, têm registros em diversas civilizações. No Egito Antigo, seis mil anos antes de Cristo, já se utilizavam figuras zoomorfas nas embarcações. Durante a Idade Média, surgiram representações humanas, e em períodos posteriores, a combinação de traços animais e humanoides.
No Rio São Francisco, as carrancas aparecem entre o final do século 19 e início do século 20. Sua origem vincula-se a Francisco Guarani, artesão local a quem se atribui o desenvolvimento da arte. O surgimento das esculturas resulta de encontro cultural entre tradições portuguesas marítimas, influências holandesas, crenças indígenas e matrizes africanas: “Tem uma mescla que vem do contato europeu, do contato português, do contato com os holandeses”, explica Moreira.
A função protetora das carrancas conecta-se diretamente aos perigos reais enfrentados pelos navegantes. Os encantados do rio representavam ameaças concretas no imaginário coletivo, e as esculturas funcionavam como talismãs contra essas forças. Moreira destaca: “A carranca tem essa função social de proteção e de justificar a sobrevivência da barca, a sobrevivência da navegação mediante tantas ameaças do desconhecido”.
O desaparecimento das embarcações tradicionais
A presença significativa das carrancas concentra-se entre o final do século 19 até a década de 1940. Seu desaparecimento está associado à transformação dos transportes fluviais. As canoas de Sergipe, mais rápidas e eficientes, começam a substituir as barcas do São Francisco que levavam as esculturas; exigiam menos tripulação, transportavam mercadorias com mais eficiência e alteraram a economia da navegação.
A mudança no modelo de pagamento — de valores por viagem para diária — incentivou ainda mais a substituição das embarcações tradicionais. Conforme os comerciantes adotam as canoas sergipanas, as barcas desaparecem do rio, levando consigo a função original das carrancas. Hoje, as poucas que subsistem servem apenas como adorno.
Simultaneamente, o imaginário que sustentava as carrancas também se desvanece. Os ribeirinhos associam o desaparecimento dos encantados à formação das hidrelétricas na região, acreditando que as estruturas afastaram essas figuras mitológicas do São Francisco. Com a perda da navegação tradicional e do universo folclórico que a cercava, a carranca transforma-se em objeto histórico, despojada de seu sentido ritual e convertida em expressão artística e memória cultural.
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