Pílula sem hormônio promete minimizar sintomas da menopausa
Medicamento em análise pela Anvisa pode reduzir ondas de calor e beneficiar mulheres que não podem fazer reposição hormonal
Uma substância chamada fezolinetanto, já aprovada em outros países, está sob avaliação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para uso no Brasil. O medicamento representa uma alternativa não hormonal para o tratamento dos sintomas vasomotores da menopausa, especialmente os “calorões” e a sudorese noturna, e pode ampliar o acesso ao tratamento para mulheres com contraindicação à terapia hormonal convencional.
A ginecologista Isabel Cristina Esposito Sorpreso, professora do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e coordenadora do projeto Menopausando, contextualiza o quadro clínico.
Segundo ela, os sintomas mais relatados pelas pacientes são os vasomotores, além de alterações de sono e humor. “Podem iniciar três, quatro anos antes da menopausa propriamente dita e permanecem aproximadamente de sete a dez anos”, afirma.
Como o medicamento age no organismo
O fezolinetanto atua de forma diferente da reposição hormonal tradicional. Em vez de modular receptores de estrogênio e progesterona, o composto bloqueia receptores de neurocinina 3 no hipotálamo, região do cérebro responsável pela regulação da temperatura corporal.
A professora explica o mecanismo: “No núcleo arqueado, no hipotálamo, nós temos neurônios que coexpressam quispeptina, neurocinina B e dinorfina, e o estrogênio estabiliza a neurocinina 3. Com o hipoestrogenismo, portanto, culmina nessa instabilidade desse centro termorregulador, que está relacionado com os sintomas de fogachos e sudorese”.
A queda do estrogênio durante a menopausa desestabiliza esse centro termorregulador, desencadeando os episódios de calor intenso. O fezolinetanto age para restabelecer essa estabilidade, sem recorrer a hormônios.
Indicações, restrições e contexto regulatório
O medicamento tem indicação para mulheres com sintomas vasomotores de intensidade moderada a grave, com destaque para aquelas que não podem usar a terapia hormonal clássica. As contraindicações são limitadas: hipersensibilidade ao composto e doenças hepáticas ativas, como cirrose, já que o fármaco passa pelo processo de metabolização no fígado.
A especialista pondera que a análise pela Anvisa segue um rito necessário. “A Anvisa não demora. O que ocorre é que existem etapas importantes de registros de medicamentos em agências regulatórias no governo brasileiro”, diz.
A terapia hormonal, por sua vez, continua sendo recomendada nos casos de sintomas menopausais moderados a intensos, síndrome geniturinária da menopausa, insuficiência ovariana prematura e alterações ósseas. “São medicamentos, portanto, muito importantes na terapêutica para alívio de sintomas menopausais”, observa a médica.
Com o aumento da longevidade feminina, cresce também o número de mulheres que atravessam a transição para a menopausa e o período pós-menopausa.
Para a ginecologista, a chegada de novas opções terapêuticas é bem-vinda, mas não substitui uma orientação médica individualizada nem a adoção de hábitos de vida saudáveis. “Independentemente da terapêutica hormonal ou não hormonal, é fundamental a mudança de estilo de vida nesta fase da vida da mulher”, conclui.
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