A “Cidade Fantasma” fundada e 1928 na Amazônia vive hoje em ruínas marcadas pelo fracasso de um bilionário americano
Henry Ford gastou milhões na cidade que ergueu no meio da Amazônia
Às margens do Rio Tapajós, no município de Aveiro, oeste do Pará, casas ao estilo de Michigan, hidrantes americanos e um hospital de concreto se deterioram em silêncio há décadas. Fordlândia foi a tentativa de Henry Ford de transplantar o sonho americano para a selva, e o resultado é uma das histórias mais improváveis do Brasil.
Por que o homem mais rico do mundo comprou terras na Amazônia?
Na década de 1920, a Ford Motor Company dependia de enormes volumes de borracha para fabricar pneus, mangueiras e vedações. O fornecimento vinha de plantações asiáticas controladas por um cartel britânico. Ford queria cortar essa dependência plantando seringueiras na terra de onde a árvore era nativa.
Em 30 de setembro de 1927, a Assembleia Legislativa do Pará aprovou a concessão de 14.568 km² às margens do Tapajós, por iniciativa do governador Dionísio Bentes. Os termos isentavam a Companhia Ford Industrial do Brasil de qualquer taxa de exportação sobre borracha, madeira ou outros produtos da área, conforme registra o portal da Prefeitura de Aveiro.

O que surgiu no coração da floresta a partir de 1928?
Dois navios saíram dos Estados Unidos carregando madeira, telhas, mudas e maquinário. Em poucos anos, a vila ganhou infraestrutura que não existia em nenhum outro ponto da Amazônia naquela época. Ford ergueu uma cidade completa com luz elétrica, cinema, piscinas, campo de golfe e casas nos moldes de cidades americanas.
O hospital foi considerado o mais moderno da região. A caixa d’água metálica de grande porte, fabricada em Michigan e trazida por navio, ainda domina o horizonte de Fordlândia. Ao redor, cerca de 2 mil casas abrigavam os trabalhadores brasileiros. No alto de uma colina, a Vila Americana reunia as residências dos administradores estrangeiros.
Quem se interessa por história e lugares abandonados, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Mundo Sem Fim, que conta com mais de 994 mil visualizações, onde Renan e Chel exploram Fordlândia, a cidade utópica criada por Henry Ford no meio da selva no Pará:
Quais erros transformaram o sonho em fracasso?
As seringueiras plantadas em monocultura foram atacadas pelo fungo mal-das-folhas (Microcyclus ulei), que devastou as plantações. Até 1929, a empresa havia cultivado apenas 400 hectares, longe dos 200 mil planejados. Ford não consultou nenhum botânico antes de iniciar o projeto, segundo o historiador Greg Grandin, da Universidade Yale.
Os problemas iam além da agricultura. Ford impôs regras americanas aos trabalhadores brasileiros: proibiu álcool, exigiu horários rígidos e tentou substituir a alimentação local por cardápio dos Estados Unidos. Em 1930, operários protagonizaram uma revolta violenta contra as condições impostas.
Em 1934, a empresa transferiu parte do projeto para Belterra, cidade vizinha com solo mais favorável. A produção continuou baixa. Com o surgimento da borracha sintética durante a Segunda Guerra Mundial, o látex natural perdeu relevância. Em 24 de dezembro de 1945, por meio do Decreto 8.440, o governo federal brasileiro definiu as condições de compra do acervo: a Ford foi indenizada em cerca de 250 mil dólares. Henry Ford nunca pisou no Brasil.

O livro que revelou Fordlândia ao mundo
A história permaneceu quase esquecida até 2009, quando Grandin publicou Fordlandia: The Rise and Fall of Henry Ford’s Forgotten Jungle City. O livro foi finalista do Pulitzer Prize, do National Book Award e do National Book Critics Circle Award, além de figurar na lista de livros notáveis do The New York Times naquele ano. A obra colocou Fordlândia no mapa internacional e atraiu nova atenção de fotógrafos, documentaristas e pesquisadores.
Em 1990, uma petição pediu ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) o tombamento de Fordlândia e Belterra. Até hoje, o processo não foi concluído.
O que ainda se encontra de pé no distrito amazônico?
Fordlândia não é uma cidade fantasma no sentido literal. Cerca de 1.200 pessoas vivem no distrito, muitas delas em casas originais do projeto, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os galpões industriais, o hospital e a serraria estão tomados pela vegetação, criando um cenário que atrai visitantes de diferentes países. Os principais pontos de visita incluem:
- Hospital de Fordlândia: tinha sala de cirurgia e radiologia. A vegetação invade pelos corredores e janelas quebradas, mas a estrutura de concreto ainda impressiona.
- Caixa d’água metálica: é o primeiro marco visível de quem chega de barco pelo Tapajós. Oferece vista panorâmica do rio e da mata ao redor.
- Vila Americana: casas de madeira ao estilo americano em uma colina. Algumas estão habitadas por moradores, outras em ruínas.
- Galpão da Serraria: mantém maquinários originais com a marca da Ford Motor Company ainda visível nas peças enferrujadas.
- Praias do Tapajós: na seca (julho a dezembro), faixas de areia clara surgem nas margens do rio com águas cristalinas de cor esverdeada.
Visite as ruínas que a floresta reconquistou
Fordlândia é um lembrete concreto de que a Amazônia funciona por lógica própria. Nem o dinheiro, nem a engenharia, nem a teimosia de Henry Ford conseguiram domesticar a floresta. O que resta é um museu a céu aberto onde o concreto racha, o ferro enferruja e as árvores reconquistam cada centímetro abandonado.
Você precisa navegar o Tapajós até Fordlândia e caminhar pelo silêncio dos galpões para entender o tamanho do que foi tentado ali, e o tamanho do que a floresta respondeu.
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