A vila dos imortais com 3 mil habitantes onde 15 pessoas passaram dos 100 anos e 171 já passaram dos 90
15 centenários em 3 mil habitantes: a vila japonesa onde envelhecer é apenas o começo
Na entrada de Ogimi, uma placa de pedra avisa: “Aos 80, você ainda é jovem. Aos 90, se seus ancestrais o convidarem para o céu, peça que esperem até os 100.” Não é exagero. A vila de 3 mil moradores no norte de Okinawa tem 15 centenários e 171 nonagenários vivos ao mesmo tempo, um índice que impressiona até para os padrões do Japão, país com mais de 86 mil pessoas acima dos 100 anos.
Por que tanta gente passa dos 100 nessa ilha?
Cientistas tentam responder essa pergunta desde 1975, quando começou o Okinawa Centenarian Study, o mais longo estudo contínuo sobre centenários do mundo. Mais de mil moradores acima dos 100 anos já foram entrevistados. Os resultados mostram que os okinawanos passam quase toda a vida sem depender de ninguém, têm muito menos problemas cardíacos que populações ocidentais e adoecem menos de câncer.
O pesquisador Craig Willcox, da Universidade Internacional de Okinawa, resume: cerca de dois terços da explicação está na comida e no jeito de viver. O resto vem da genética. Dan Buettner, explorador da National Geographic, incluiu Okinawa entre as cinco Blue Zones do planeta, regiões onde se vive mais e melhor, ao lado de Sardenha (Itália), Nicoya (Costa Rica), Ikaria (Grécia) e Loma Linda (Califórnia).

A batata-doce roxa que alimentou gerações
A base da alimentação em Ogimi sempre foi simples e colorida. A batata-doce roxa, cheia de antioxidantes, foi por décadas o alimento principal, representando mais da metade do prato dos centenários. Tofu, goya (um melão amargo típico), algas, verduras e peixe em pequenas porções completam a mesa. Carne de porco aparece apenas em festas e cerimônias.
Antes de comer, os okinawanos repetem uma frase que funciona como freio natural: hara hachi bu, ou “coma até estar 80% satisfeito”. Como o cérebro demora alguns minutos para perceber que o estômago está cheio, parar antes evita o excesso. Na prática, eles consomem bem menos calorias por dia que a média ocidental, sem passar fome.
Quem busca o segredo da longevidade, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Elle McLemore, que conta com mais de 112 mil visualizações, onde Elle McLemore mostra como os moradores de Okinawa, no Japão, vivem mais de 100 anos através do conceito de Ikigai:
Ikigai: a razão que faz cada centenário levantar da cama
Na língua okinawana, não existe palavra para “aposentadoria”. O conceito simplesmente não fazia sentido até poucas décadas atrás. Em seu lugar, existe o ikigai, traduzido livremente como “a razão pela qual você acorda de manhã”. Para um centenário de Ogimi, o ikigai era cuidar de dois touros premiados todos os dias. Para outro, era cultivar a horta. Para uma tecelã de 98 anos, era manter viva a técnica ancestral do basho-fu, tecido feito de fibra de bananeira.
Pesquisadores estimam que ter um propósito claro pode acrescentar anos à vida. O ikigai não precisa ser grandioso. Pode ser uma neta, uma planta, um ofício. O que importa é sentir que alguém ou alguma coisa depende de você.
Moai: o grupo de amigos que dura a vida inteira
Aos cinco anos, crianças okinawanas são colocadas em um moai, um pequeno grupo de compromisso mútuo que pode durar décadas. Um moai específico documentado por Buettner reunia cinco mulheres há 97 anos, com média de idade de 102. Elas se encontravam diariamente para tomar saquê e conversar. Se uma não aparecia, as outras quatro vestiam quimonos e iam a pé verificar se estava bem.
O moai funciona como rede de segurança emocional e financeira. Em momentos de dificuldade, o grupo se mobiliza. Essa conexão social constante reduz o estresse crônico e combate a solidão, que segundo estudo publicado no American Journal of Lifestyle Medicine é tão prejudicial à saúde quanto fumar.
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O paradoxo da geração que abandonou a batata-doce
A longevidade okinawana tem uma sombra. As gerações mais jovens, criadas com fast-food americano durante e após a ocupação militar (1945-1972), engordaram. Okinawa hoje lidera o ranking de obesidade entre as 47 províncias japonesas. A expectativa de vida masculina, que já foi uma das maiores do país, despencou no início dos anos 2000. O pesquisador Saul Justin Newman, da University College London, também questiona se parte dos registros de centenários não reflete falhas em certidões de nascimento antigas.
As controvérsias existem, mas o Okinawa Centenarian Study segue ativo e é o mais duradouro do tipo no mundo. O que Ogimi ensina talvez não seja um segredo, mas um lembrete: mover o corpo, comer sem exagero, ter amigos de verdade e acordar com um motivo são hábitos que qualquer pessoa pode adotar, em qualquer lugar.
A vila que pede ao céu para esperar
Ogimi não vende suplementos nem promete fórmulas mágicas. O que existe ali é uma comunidade onde idosos cultivam hortas, caminham até o vizinho e sentem que ainda têm trabalho a fazer no mundo.
Se o conceito de envelhecer bem te interessa, Okinawa merece mais do que uma leitura, merece uma visita para ver de perto como centenários vivem com leveza o que muita gente jovem ainda não aprendeu.
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