A ilha mais povoada do planeta, onde a polícia nunca precisou registrar um crime: o vilarejo tem o tamanho de 2 campos de futebol com 97 casas, 1200 pessoas e 6 sobrenomes
Do tamanho de dois campos de futebol, essa ilha reúne 97 casas, 6 sobrenomes e uma rotina sem crimes
Vista do alto, parece um erro no mapa. Um retângulo de casas coloridas flutuando no Caribe colombiano, sem praias, sem ruas para carros e sem espaço sobrando. Santa Cruz del Islote, no Arquipélago de San Bernardo, ocupa cerca de 1,2 hectare e abriga uma comunidade inteira que nunca precisou de polícia.
A ilha que pescadores construíram com conchas e lixo do mar
Até a década de 1860, o pedaço de coral não tinha nome nem morador. Pescadores afro-colombianos vindos de Cartagena e Tolú começaram a parar ali para descansar entre jornadas no mar. Dois atrativos os convenceram a ficar: a abundância de peixes nos corais ao redor e a ausência total de mosquitos, algo raro na região. Os primeiros colonos ampliaram o terreno com conchas, cascas de coco, troncos das ilhas vizinhas, areia e até lixo trazido pela maré.
Segundo o fotógrafo Charlie Cordero, que documentou a ilha para a National Geographic, o nome surgiu quando a maré trouxe uma cruz de cimento. Os moradores a fincaram no centro da ilha e batizaram o lugar de Santa Cruz del Islote, “Santa Cruz da Ilhota”.

Como centenas de pessoas dividem um hectare sem conflito?
A população exata é tema de debate. Estimativas variam entre 500 e 1.200 habitantes, dependendo da fonte e da época do ano. Um censo dos anos 2010 registrou 492 moradores permanentes. Outra contagem administrativa apontou 779. Moradores mais antigos dizem que a cifra de 1.200 é exagerada e causa incômodo. O que ninguém contesta é a densidade: mesmo com a estimativa mais conservadora, Santa Cruz del Islote tem mais habitantes por metro quadrado que Manhattan.
A ilha tem 97 casas, quatro ruas principais e 10 bairros. Toda a população descende de 45 famílias originais e compartilha apenas seis sobrenomes. Não existe nenhum morador de fora. Quando o espaço de uma casa acaba, a família constrói um segundo andar. Até 10 pessoas dormem no mesmo cômodo. Ninguém tranca a porta e nenhum crime foi registrado, segundo reportagem da CNN.
Quem tem curiosidade sobre lugares extremos, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Ruhi Çenet Português, que conta com mais de 279 mil visualizações, onde o apresentador mostra a vida em Santa Cruz del Islote, a ilha mais povoada do mundo na Colômbia:
Crianças que atravessam salas de estar para chegar à próxima rua
Cerca de 65% da população tem menos de 18 anos. As crianças aprendem a nadar e pescar antes de aprender a ler. Correm pelas vielas, cruzam a sala dos vizinhos como atalho e jogam futebol no único espaço aberto da ilha, uma mini praça com a cruz de cimento ao centro. A escola funciona até o décimo ano. Quem quer continuar estudando precisa ir para o continente.
O morador Juve Nal, líder comunitário e guia informal, resumiu à CNN o sentimento dos ilhéus: não trocariam a ilha por lugar nenhum. “Todo dia acordo com o som e a vista do mar”, disse. Essa convivência forçada pela geografia criou um sistema de vigilância natural em que todos cuidam de todos, tornando a polícia desnecessária.
Sem água doce, sem esgoto e com energia por poucas horas
A lista do que falta em Santa Cruz del Islote é longa. Não há água potável natural na ilha. O abastecimento depende de barcos da Marinha Colombiana, que deveriam entregar água a cada poucas semanas, mas os atrasos são frequentes. Os moradores complementam com captação de chuva, embora as chuvas na região sejam espaçadas. Não existe sistema de esgoto nem cemitério. Os mortos são levados de canoa para ilhas vizinhas.
A energia elétrica vem de painéis solares doados pelo Japão e geradores a diesel, mas é instável e pode ficar fora do ar por dias. Em 2020, durante a pandemia de Covid-19, o governo colombiano instalou internet gratuita 24 horas na ilha para que as crianças pudessem assistir a aulas virtuais. Em julho de 2021, Santa Cruz del Islote se tornou o primeiro território da Colômbia totalmente vacinado contra o vírus.

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Turismo que incomoda e sustenta ao mesmo tempo
A fama de “ilha mais povoada do mundo” trouxe turistas que fotografavam os moradores como se visitassem um zoológico. A comunidade reagiu: passou a cobrar uma taxa de entrada de 3 mil pesos colombianos (cerca de US$ 1) e a oferecer visitas guiadas para que os visitantes conheçam a cultura local em vez de apenas apontar câmeras. O dinheiro ajuda a comprar água e manter a ilha funcionando.
A pesca, que já foi a principal fonte de renda, perdeu força com a redução dos estoques. Hoje, muitos moradores trabalham nos hotéis das ilhas vizinhas Tintipán e Múcura. O turismo sustentável virou uma aposta, com projetos de conservação de tartarugas marinhas substituindo práticas antigas de captura.
A ilhota onde o aperto virou abraço
Santa Cruz del Islote não é um paraíso tropical no sentido convencional. Falta espaço, falta água e sobra precariedade. Mas a comunidade que ergueu uma ilha inteira com conchas e restos do mar também construiu algo que cidades grandes não conseguem: um lugar onde ninguém precisa trancar a porta.
Se algum dia você passar pelo Arquipélago de San Bernardo, reserve mais do que meia hora para essa ilha, porque o que se aprende ali sobre vizinhança não cabe em nenhuma foto de drone.
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