A cidade futurista da Toyota onde moradores reais testam robôs domésticos, casas inteligentes e hidrogênio como energia
Uma cidade criada pela Toyota virou laboratório vivo para testar robôs domésticos, tecnologia residencial e energia movida a hidrogênio
Aos pés do Monte Fuji, em Susono, província de Shizuoka, famílias de funcionários da Toyota já acordam dentro de um experimento urbano. A Woven City abriu as portas em setembro de 2025 como a primeira cidade do mundo projetada do zero para testar tecnologias de mobilidade com gente de verdade morando lá dentro.
Da fábrica de teares à fábrica de futuros
A Toyota começou como fabricante de teares automáticos nos anos 1890 antes de migrar para automóveis. O nome Woven City, “cidade tecida”, homenageia essa origem. O terreno de 71 hectares onde a cidade foi erguida abrigou por 53 anos a fábrica Higashi-Fuji da Toyota Motor East Japan, desativada para dar lugar ao projeto. A ideia foi apresentada pelo então presidente Akio Toyoda na CES 2020, em Las Vegas, com uma pergunta direta ao público: “Vocês acham que eu perdi o juízo?”.

O projeto arquitetônico ficou a cargo do escritório dinamarquês BIG (Bjarke Ingels Group). Os edifícios são construídos predominantemente em madeira, combinando técnicas tradicionais de marcenaria japonesa com fabricação robótica. Telhados cobertos por painéis fotovoltaicos complementam a energia gerada por células de hidrogênio, geotermia e filtragem de águas pluviais, tudo com meta de neutralidade de carbono.

Quem se interessa por urbanismo e inovação no Japão, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal DW Brasil, que conta com mais de 23 mil visualizações, onde é apresentado o projeto da Woven City, a cidade laboratório da Toyota aos pés do Monte Fuji:
Três tipos de rua que nunca se misturam
O desenho urbano de Woven City resolve um problema antigo das cidades: a disputa entre carros, bicicletas e pedestres. Bjarke Ingels dividiu a rua convencional em três faixas independentes. A primeira é exclusiva para veículos autônomos de emissão zero, como o e-Palette da Toyota. A segunda funciona como passeio urbano compartilhado entre pedestres e micromobilidade de baixa velocidade, como bicicletas e patinetes elétricos. A terceira é um parque linear reservado apenas para quem caminha.
Essas três faixas se entrelaçam em blocos de 3×3, formando uma malha orgânica onde cada quadra emoldura um pátio interno acessível apenas pelas vias mais lentas. Toda a logística pesada, incluindo entregas autônomas de mercadorias e a rede de hidrogênio, circula por túneis subterrâneos, invisível para quem anda na superfície. A Toyota confirmou que semáforos da cidade priorizam pedestres por padrão e só ficam vermelhos quando sensores detectam veículos se aproximando.

Quem são os primeiros moradores da cidade do futuro?
Desde setembro de 2025, funcionários do grupo Toyota e suas famílias vivem em Woven City como os primeiros “Weavers”, nome dado aos moradores-testadores. A Fase 1 ocupa cerca de 47 mil m², com 14 estruturas, incluindo oito residenciais, e capacidade para até 300 pessoas. Visitantes externos devem ser recebidos a partir do ano fiscal de 2026.
Ao lado dos moradores operam os “Inventors”, empresas e pesquisadores que desenvolvem produtos e serviços dentro da cidade. Até agosto de 2025, 19 parceiros já haviam aderido ao projeto. A Toyota chama essa convivência de “Kakezan”, termo japonês para multiplicação: inovação que nasce quando capacidades diferentes se cruzam. Entre os Inventors externos ao grupo Toyota estão:
- Daikin Industries: climatização inteligente adaptada ao comportamento dos moradores.
- Nissin Foods: alimentação do futuro integrada à logística autônoma da cidade.
- DyDo Drinco: máquinas de bebidas conectadas à rede de dados urbana.
- UCC Japan: experiências de café personalizadas por IA.
- Zoshinkai Holdings: creche e centro educacional com análise de atividades infantis por inteligência artificial.
- Interstellar Technologies: produção de foguetes com suporte de engenharia da Toyota (fora do perímetro da cidade).
- Kyoritsu Seiyaku: pesquisa sobre convivência entre humanos e animais de estimação.
Quem deseja vislumbrar o futuro da mobilidade no Japão, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Toyota Motor Corporation, que conta com mais de 46 mil visualizações, apresentando a visão tecnológica da Woven City diretamente da CES 2025:
Casas que cuidam de quem mora dentro delas
As residências de Woven City funcionam como plataformas de teste para robótica doméstica e inteligência artificial. Sensores monitoram indicadores de saúde dos moradores. Robôs realizam entregas de supermercado, retirada de roupa lavada e descarte de lixo, tudo conectado à rede subterrânea de logística autônoma. A IA da casa aprende padrões de uso e adapta funções como iluminação, temperatura e estoque de alimentos.
Cada residência oferece vista para o Monte Fuji e foi projetada com o módulo tatami como referência de escala. A construção em madeira sequestra carbono e reduz a pegada ambiental em comparação com aço e concreto. A combinação entre carpintaria tradicional japonesa e robôs de montagem transforma as casas em peças de engenharia que honram o passado enquanto testam o futuro.

Um laboratório que também pode falhar
O filho de Akio Toyoda, Daisuke Toyoda, vice-presidente executivo de Woven City, admitiu à Bloomberg que não sabe quando o projeto dará resultados concretos. A cidade funciona como propriedade privada, sem estar sujeita às leis de trânsito públicas do Japão, o que facilita testes com veículos autônomos, mas também limita a aplicação direta das descobertas em cidades reais. O investimento total é estimado em US$ 10 bilhões.
A Fase 1 cobre menos de 7% dos 71 hectares disponíveis. As próximas etapas devem expandir a população para 2 mil moradores e incluir novos parceiros industriais e acadêmicos. O plano completo prevê que toda a malha urbana proposta por Bjarke Ingels ganhe vida ao longo de décadas, com ajustes contínuos baseados nos dados coletados em tempo real.

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A cidade tecida ainda está no primeiro fio
Woven City é menos uma vitrine e mais um canteiro de testes onde erros fazem parte do processo. A Toyota apostou que a melhor maneira de inventar o futuro da mobilidade é fazer pessoas reais viverem dentro dele, com robôs na cozinha e carros sem motorista na esquina.
Se você acompanha tecnologia e urbanismo, vale ficar de olho em Susono, porque o que acontecer aos pés do Fuji pode redesenhar ruas no resto do mundo.
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