Maristela Basso na Crusoé: Entre a coroa e o confete
Se há uma lição que Shakespeare nos legou é que governantes passam, encenações terminam, aplausos cessam. O que permanece é o julgamento da história
O Carnaval brasileiro é arte popular, mas é também ritual cívico.
Quando uma escola de samba decide homenagear o presidente da República em exercício — Luiz Inácio Lula da Silva —, o gesto ultrapassa o campo estético.
Entra no território simbólico do poder.
Se William Shakespeare estivesse na Marquês de Sapucaí, talvez não discutisse a qualidade do samba-enredo.
Perguntaria algo mais incômodo: quem escreve essa dramaturgia e quem se beneficia dela?
Em Júlio César, a multidão romana oscila entre Bruto e Marco Antônio conforme a força do discurso.
Shakespeare deixa claro: o poder é inseparável da encenação pública.
A política vive da narrativa.
O desfile carnavalesco, com suas alegorias monumentais e sua coreografia calculada, é também um discurso político — ainda que sob a máscara do entretenimento.
Não se trata de negar liberdade artística. Ao contrário. A autonomia cultural é elemento essencial de qualquer democracia plural.
Mas quando o homenageado é o chefe do Executivo, e quando há financiamento público direto ou indireto envolvido, a linha entre celebração cultural e reforço simbólico de poder torna-se delicada.
Shakespeare advertiria que o poder que se celebra a si mesmo corre riscos.
Em Ricardo II, o monarca descobre que a legitimidade não depende apenas da coroa, mas da percepção pública.
A imagem sustenta o trono tanto quanto…
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