Entenda o debate entre Jordan Peterson e Slavoj Zizek
Ambos são figuras da filosofia pop dos seus respectivos campos: Zizek, pela esquerda; Peterson, pela direita.
O filósofo esloveno Slavoj Zizek e o psicólogo canadense Jordan Peterson participaram na última sexta (19) do que foi anunciado como “o debate do século“. Ambos são figuras da filosofia pop dos seus respectivos campos: Zizek, pela esquerda; Peterson, pela direita. Mas, se os fãs esperavam um conflito sangrento, os astros entregaram o que mais parecia uma conversa de compadres.
Resumimos aqui o que você precisa saber sobre o (quase) debate.
Os lutadores
No canto esquerdo, Slavoj Zizek, 70 anos, nascido na ex-Iugoslávia. Dois doutorados. Crítico do capitalismo, autor frequente de artigos para jornais e revistas, já foi citado três vezes pela Foreign Policy como um dos 100 pensadores mais influentes do mundo.
No canto direito, Jordan Peterson, 56 anos, canadense. Um doutorado. Psicólogo clínico, ficou famoso ao criticar o politicamente correto e a esquerda radical. Seu canal no YouTube tem quase 2 milhões de assinantes.
Tem muita crítica justa ao Peterson. Mas a gente tem que admitir que o jeito que ele senta na cadeira olhando pro Zizek enquanto imita uma modelo de pin up é sensual pacas. pic.twitter.com/iRVM0IxG71
— Azul. (@Azul84) 20 de abril de 2019
A arena
O evento foi realizado no Sony Centre de Toronto, o maior teatro do Canadá. Os mais de 3 000 ingressos se esgotaram em poucas horas. Outras 6 000 pessoas pagaram US$ 14,95 para assistir ao evento online, ao vivo. O público corresponde a uma pequena fração dos leitores de 12 Regras para a Vida, de Peterson, que vendeu mais de 3 milhões de cópias desde seu lançamento em janeiro de 2018.
O tema
“Felicidade: Capitalismo x Marxismo” era o tema do debate. Na prática, a discussão a respeito dele só começou mesmo no segundo tempo.
As regras
Cada debatedor teve 30 minutos para uma exposição inicial, começando com Peterson. Em seguida, 10 minutos para réplicas. Finalmente, o mediador administrou 45 minutos de perguntas diretas.
A partida
Peterson começou o jogo com uma crítica ao Manifesto Comunista (1848), de Marx e Engels. Todos os argumentos foram acertados e já são bem conhecidos, mas foi uma perda de tempo. Zizek não é um comunista à moda antiga e não está nem aí para o Manifesto. Peterson teria se saído melhor se entrasse no tema da felicidade ou se criticasse textos de Zizek.
É Zizek quem cita primeiro a palavra-chave do dia. “A felicidade é uma noção confusa“, argumenta, “porque se baseia na incapacidade do indivíduo de confrontar plenamente as consequências de seu desejo“. Em seu estilo metralhadora giratória, Zizek então ataca uma série de tópicos, incluindo Donald Trump, Bernie Sanders, o stalinismo, as ideologias e a noção de marxismo cultural.
A parte substantiva do debate só começa depois dessas palestras, quando os dois passam ao conflito direto. Peterson pergunta a Zizek por que ele se identifica com o marxismo apesar de tantas críticas que faz à esquerda. Zizek enrola um pouco e diz que na verdade é mais fã de Hegel.
Em seguida, os dois passam a concordar em uma série de coisas e a bater no politicamente correto. Zizek tenta encurralar Peterson pedindo que ele cite proponentes do “marxismo cultural”, mas o canadense se sai bem explicando como a antiga divisão entre proletários e burgueses foi substituída pela atual política de identidade, na qual os “opressores” são sempre malvados e os “oprimidos” sempre bondosos.
Peterson e Zizek novamente concordam com o fato de que a felicidade é fugidia e não deve ser o principal objetivo da vida, mas uma consequência de assumir responsabilidades e levar uma boa vida (conforme Peterson) ou como subproduto de trabalhar por uma causa (segundo Zizek).
Debate do @jordanbpeterson vs Slavoj Zizek.
O Peterson atacou o Marxismo frontalmente, enquanto que o Zizek se esquivou de falar de marxismo e ensaboou a sua fala com frases como "não existe uma resposta clara" … Compartilhem e marquem o Peterson para chegar nele!! pic.twitter.com/RwdKKwhDEM— Pedro (@PedroLorenzo87) April 23, 2019
Os fãs mais ansiosos de cada um estão certos de que seu respectivo ídolo “venceu” o debate. É uma posição difícil de sustentar. Zizek, que se autodefine como “pessimista radical”, defende de fato poucas teses, preferindo criticar as dos outros. Isso deixou pouco espaço para Peterson bater em alguma coisa.
Além disso, os dois concordaram em quase todos os assuntos mais importantes da conversa. Especialmente no ataque à esquerda. “Se você é de esquerda, por favor não sinta-se obrigado a ser politicamente correto“, pediu Zizek; “não tenha medo de pensar“. Quem falou em pessimismo?
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