Clarita Maia na Crusoé: Jessé e a traição dos intelectuais
Vocação universalista tem sido substituída pela adesão às paixões políticas, nacionalistas e identitárias do tempo atual
O que leva um intelectual do século 21 a ecoar um panfleto falso e delirante produzido pela Rússia czarista entre o final do século 19 e o início do século 20?
O que conduz um doutor em sociologia, formado por universidade alemã de prestígio e ex-presidente de relevante instituto de pesquisa brasileiro, a aderir a um raciocínio conspiracionista, por definição, não científico, que fundamentou pogroms, ataques coletivos violentos contra as vidas e a dignidade da comunidade judaica na Rússia czarista?
A pergunta não é apenas circunstancial. Ela é histórica.
Em 1927, Julien Benda publicou A Traição dos Intelectuais, obra em que denunciava o abandono da vocação universalista dos intelectuais, substituída pela adesão às paixões políticas, nacionalistas e identitárias de seu tempo.
Para Benda, quando o intelectual troca a busca da verdade pela militância emocional, ele deixa de ser guardião de princípios universais para tornar-se engenheiro de ressentimentos coletivos. As universidades alemãs, a despeito de sua excelência, tornaram-se as primeiras plataformas sociais do nazismo.
A história recente mostra que essa traição é um risco permanente.
A ironia histórica é evidente. Um documento forjado para justificar as políticas autoritárias de um Império Russo pressionado por forças que culminariam em sua queda passa a ser reatualizado por alguém alinhado à matriz ideológica que emergiu vitoriosa desse mesmo colapso: o marxismo.
A circularidade histórica revela algo mais profundo do que incoerência: revela a persistência de estruturas imaginárias que sobrevivem às mudanças de regime e às alternâncias ideológicas e que são exploradas como projeto político.
Para compreender como esse fenômeno é possível, vale recorrer a duas obras fundamentais sobre medo e comportamento coletivo.
Em O Efeito Lúcifer, o psicólogo social Philip Zimbardo demonstrou que indivíduos comuns podem praticar atos cruéis não por maldade intrínseca, mas porque são inseridos em sistemas e coletividades que favorecem a desumanização, a obediência cega…
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