Wilson Pedroso na Crusoé: O intervalo que não foi só show
Apresentação de Bad Bunny no Super Bowl foi uma operação simbólica bem executada
Eu não vi apenas um show no intervalo do Super Bowl. Vi uma disputa simbólica acontecendo ao vivo, diante de mais de cem milhões de pessoas.
Bad Bunny subiu ao palco e fez algo que, no contexto americano, é maior do que parece: cantou só em espanhol. Nenhuma concessão. Nenhuma tradução. Nenhum aceno protocolar. Foi escolha.
Dias antes, ele já tinha provocado ao gritar “ICE out” em outra premiação. ICE é a agência federal de imigração dos Estados Unidos, ligada às deportações em massa.
Quando ele leva essa tensão para o evento mais americano do calendário, desloca o debate. Sai da militância tradicional e entra no centro da cultura pop.
Trump reagiu rápido. Criticou o show, falou em desrespeito, estimulou a divisão. E ali aconteceu o movimento clássico da política: ao atacar, elevou o adversário. Em minutos, o cantor virou símbolo. Não era mais só artista. Era representação.
Existe um mecanismo conhecido nisso. Quando o poder reage com força contra uma figura pública, muitas vezes amplia o alcance dela. A crítica vira combustível. O confronto cria identidade. É quase um roteiro previsível, e ainda assim eficiente.
O que mais me chamou atenção foi o cálculo. Bad Bunny não tentou convencer conservador algum. Não era esse o jogo.
Ele usou a estrutura da indústria americana NFL, patrocinadores e transmissão global para amplificar uma mensagem cultural. Cantou no horário mais caro da TV americana falando com o público que já se sente pressionado.
Foi uma operação simbólica bem executada.
E há um detalhe pouco comentado: a audiência bateu recorde. O público latino cresceu. A indústria faturou. O espanhol mostrou que não é obstáculo comercial. Isso muda muita coisa.
Não é só cultura. É mercado.
Para nós, brasileiros, há uma camada adicional. São mais de um milhão vivendo nos Estados Unidos. Muitos em situação sensível.
Quando o Brasil aparece no telão junto com México, Colômbia e Argentina…
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