Os segredos do esqueleto do “Gigante Irlandês”
Charles Byrne, nascido em 1761 em Mid Ulster, na Irlanda rural, cresceu em um contexto de pouco acesso à medicina
A decisão de retirar o esqueleto do chamado “gigante irlandês” da exposição pública em Londres reacendeu um debate que mistura história, ciência e ética, envolvendo o Hunterian Museum, a trajetória de Charles Byrne e as discussões atuais sobre respeito aos mortos e uso científico de restos humanos.
Quem foi Charles Byrne e por que ele se tornou o “gigante irlandês”
Charles Byrne, nascido em 1761 em Mid Ulster, na Irlanda rural, cresceu em um contexto de pouco acesso à medicina.
Ao chegar a Londres em 1782, com cerca de 2,3 metros, virou atração pública em espetáculos e exibições.
Sem explicações científicas claras na época, Byrne foi visto como fenômeno por médicos e curiosos.
Sua morte precoce em 1783, aos 22 anos, despertou o interesse do cirurgião John Hunter, que desejava estudar corpos considerados raros.
Squelette de Charles Byrne, le "géant irlandais", à l'Hunterian Museum de Londres : 2,31 m pic.twitter.com/8ybuX4TBSO
— Patrick Baud (@patrick_baud) April 20, 2015
O que explica o gigantismo e a condição médica de Charles Byrne
Hoje se sabe que Byrne tinha um adenoma hipofisário benigno, que provoca produção excessiva de hormônio do crescimento.
Em crianças causa gigantismo; em adultos, acromegalia, com alterações ósseas e risco cardiovascular.
Essas condições, atualmente tratáveis com cirurgia, radioterapia e medicamentos, eram praticamente incompreendidas no século XVIII.
O caso de Byrne tornou-se um marco histórico para entender os efeitos extremos do hormônio do crescimento.
Por que o esqueleto do gigante irlandês ainda é relevante para a medicina
Pesquisas com DNA extraído dos restos de Byrne identificaram uma mutação genética associada ao gigantismo, também presente em parentes distantes, como Brendan Holland.
Isso reforçou a hipótese de um padrão hereditário na região de Mid Ulster.
Esses achados ajudaram a aprimorar o diagnóstico precoce e a vigilância em famílias com histórico de crescimento exagerado, além de orientar terapias mais eficazes.
Entre as principais contribuições médicas, destacam-se:
- compreensão dos efeitos do hormônio do crescimento sobre o esqueleto;
- identificação de mutações hereditárias ligadas ao gigantismo;
- criação de estratégias de rastreio em grupos de risco familiar;
- aperfeiçoamento de cirurgia, radioterapia e fármacos específicos.
The skeleton of Charles Byrne (1761 – 1783) ("The Irish Giant"), on display at the Hunterian Museum of the Royal College of Surgeons of England (London, UK). pic.twitter.com/6SjLq9g733
— Andy (@andreas_nigbur) September 16, 2025
Quais são os principais dilemas éticos sobre seus restos mortais
Há registros de que Byrne desejava ser sepultado no mar, para evitar a dissecação comum em criminosos na época.
Ainda assim, John Hunter obteve o corpo por meio de intermediários, contrariando esse desejo declarado.
O caso levanta questões sobre respeito à vontade em vida, exposição pública de restos humanos, usos didáticos em medicina e possível repatriação.
Autores como Hilary Mantel defendem que a ciência já obteve o essencial e que um sepultamento seria mais adequado.
Quais caminhos futuros são discutidos para o destino de Charles Byrne
Com a retirada do esqueleto da exposição a partir de 2025, o Hunterian Museum decidiu mantê-lo apenas para pesquisa médica legítima.
A medida busca conciliar a preservação do legado científico com maior sensibilidade ética.
Entre as possibilidades em debate estão mantê-lo restrito à pesquisa, repatriá-lo para a Irlanda ou cumprir o desejo de sepultamento no mar.
O desfecho deverá orientar como outras coleções anatômicas históricas serão tratadas no mundo.
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