Hannah Arendt explica a cultura do cancelamento
A expressão banalidade do mal, formulada por Hannah Arendt na década de 1960, tem sido usada para pensar comportamentos coletivos na internet
A expressão banalidade do mal, formulada por Hannah Arendt na década de 1960, tem sido usada para pensar comportamentos coletivos na internet, especialmente a cultura do cancelamento.
O que significa banalidade do mal em Hannah Arendt
A banalidade do mal descreve um mal que se torna cotidiano, praticado por pessoas comuns que deixam de pensar criticamente e de se colocar no lugar do outro.
Em vez de monstros cruéis, Arendt observa sujeitos burocráticos que seguem regras e ordens sem questionar suas implicações morais.
Esse conceito ressalta a importância da responsabilidade individual, pois repetir discursos, obedecer à hierarquia ou aderir à maioria não elimina a participação de cada um no resultado final.
A reflexão ética atua como barreira contra a obediência cega e a normalização da violência.

Como a banalidade do mal se relaciona com a cultura do cancelamento
Na cultura do cancelamento, usuários participam de campanhas de ataque, exposição e linchamento virtual com poucos cliques, muitas vezes sem avaliar contexto, proporção ou consequências.
Perfis aparentemente irrelevantes, somados, produzem grande impacto na vida da pessoa cancelada.
Críticas on-line podem ser importantes para denunciar abusos e discriminações, mas também podem se transformar em punição simbólica rápida, sem direito de resposta.
O discurso de “fazer justiça digital” dilui a responsabilidade individual e incentiva ações mais agressivas do que em interações presenciais.
De que forma o ambiente digital favorece a banalização da agressão
Pesquisas em comunicação digital mostram que redes sociais favorecem respostas rápidas, movidas por indignação, choque e busca por visibilidade.
Isso cria terreno para uma banalização da agressão on-line, na qual insultos e humilhações se tornam rotina em determinadas plataformas.
Nesse cenário, a fronteira entre crítica legítima e perseguição pública fica pouco nítida, sobretudo em temas políticos ou identitários.
Arendt inspira a desacelerar o impulso de julgar, considerando proporcionalidade, possibilidade de reparação e limites entre responsabilização e destruição de reputações.

Quais elementos da banalidade do mal aparecem nas interações digitais
Alguns traços identificados por Arendt no caso Eichmann podem ser adaptados para entender práticas comuns na internet, ajudando a enxergar como pequenas ações individuais se somam e geram efeitos de grande escala.
- Rotina e repetição: ataques, memes ofensivos e boatos integram o dia a dia on-line, perdendo o caráter de exceção.
- Deslocamento de responsabilidade: usuários alegam apenas seguir a maioria ou compartilhar algo já viral.
- Linguagem padronizada: termos como “punição necessária” e “mérito” naturalizam exclusões digitais.
- Distância do impacto real: poucos acompanham efeitos psicológicos, profissionais ou familiares do cancelamento.
Como construir um debate público mais responsável nas redes
Para enfrentar a banalidade do mal em ambientes digitais, é preciso fortalecer a capacidade de julgar e pensar em público, sem aderir automaticamente a mobilizações punitivas.
Isso implica repensar formas de denúncia, engajamento e responsabilização nas plataformas.
Um debate público mais responsável combina firmeza diante de práticas lesivas com abertura para aprendizado, mudança de comportamento e reparação.
Ao destacar o peso das pequenas escolhas individuais, Arendt ajuda a questionar tanto a passividade quanto o impulso de cancelamento imediato.
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