Tarcísio virou um Frankenstein invertido
A criatura de Jair Bolsonaro agrada a muito mais gente do que a família do criador gostaria
No clássico de Mary Shelley, Victor Frankenstein cria um monstro repelente, que o cientista renega no momento em que lhe dá vida e que acabará se tornando sua ruína.
No caso de Jair Bolsonaro, a criatura Tarcísio de Freitas (foto) não é repelente. Pelo contrário: agrada a muito mais gente do que a família do criador gostaria, e exatamente naquele grupo que costuma decidir as eleições. Por isso, também é visto por eles como a ruína do ex-presidente.
Ex-ministro da Infraestrutura de Bolsonaro, o governador de São Paulo é enxergado como a melhor ponte possível para fora da dicotomia entre lulismo e bolsonarismo, pois tem uma ligação inegável com o ex-presidente, mas não carrega a mesma carga ideológica, é visto como mais pragmático.
As pesquisas de intenção de voto indicam que Tarcísio seria o mais desafiador adversário de Lula na eleição presidencial deste ano, a ponto até de demover o presidente de tentar a reeleição.
Rejeição
A família Bolsonaro teme perder o protagonismo do confronto com o petista, contudo, e se agarra à duvidosa candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Os bolsonaristas apostam na fraqueza de Lula e celebram cada avanço do senador, como a queda de cinco pontos percentuais em sua rejeição apontada pela pesquisa Genial/Quaest de quarta-feira, 14.
Aliás, alguns bolsonaristas apostam em Flávio.
Outros, como a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, o pastor Silas Malafaia e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-M), não se engajaram na pré-campanha e mandam periodicamente seus recados públicos, de forma explícita, como Malafaia, ou discreta, como Michelle.
Tarcísio
O próprio Tarcísio mantém a porta da candidatura presidencial aberta, apesar de já ter dito várias vezes que pretende tentar a reeleição em São Paulo, para não melindrar os Bolsonaros.
Mas os Bolsonaros já estão totalmente melindrados.
O deputado cassado Eduardo Bolsonaro retomou os ataques ao governador de São Paulo, junto com o irmão Carlos, ex-vereador do Rio de Janeiro, evocando a memória do ex-governador João Doria, para pintar Tarcísio como mais um dos vários alegados traidores do bolsonarismo.
Na tentativa de defender o protagonismo, os bolsonaristas emulam a retórica dos petistas e reclamam da “Faria Lima” e do discurso de Tarcísio de que o Brasil precisa de um CEO.
Estratégia
É de se destacar que Flávio não participa da malhação de Tarcísio, o que mantém aberta a porta presidencial do governador de São Paulo, apesar do desgaste provocado pelos outros filhos de Bolsonaro, muito mais emocionados, e seus subalternos mais fiéis.
O senador parece ser o único dos filhos do ex-presidente capaz de — ou interessado em — calcular as possíveis consequências de uma derrota presidencial para a família em 2026.
Manter o protagonismo na direita com Bolsonaro preso e apenas dois dos quatro filhos com mandato pode não ser o bastante para sustentar o poder da família — e talvez Michelle, momentaneamente escanteada, acabe virando a protagonista no caso de uma derrota de Flávio para Lula nas urnas, caso confirme o favoritismo e se eleja senadora pelo Distrito Federal.
Como já lembrou O Antagonista, o próximo presidente da República poderá indicar ao menos três ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Obviamente há muito mais em jogo na eleição deste ano do que o futuro da família Bolsonaro, menos para a própria família Bolsonaro.
Os filhos do ex-presidente só precisam calcular direito se a estratégia que adotaram, de tentar submeter ou descartar os aliados, realmente resultará naquilo que pretendem.
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