De vilã a solução: como a alga sargassum virou casa resistente a furacão no Caribe
Casas sustentáveis feitas de alga agora resistem a furacões e ajudam famílias carentes.
Transformar um problema gigante em solução virou rotina nas praias do Caribe mexicano. O que antes era só um “tapete marrom” de sargassum causando mau cheiro, prejuízo ao turismo e até problemas respiratórios, hoje começa a virar tijolo, casa acessível, renda e inspiração para projetos sustentáveis em vários países.
Por que o sargassum se tornou um grande problema ambiental e econômico?
O sargassum é uma alga marrom flutuante que passou de fenômeno sazonal a presença quase constante em praias do México, Caribe, Flórida e Texas. Em vez de se dispersar no mar, forma faixas enormes na areia, apodrece, libera gases com mau cheiro e pode causar irritação nos olhos, náusea e desconforto respiratório.
Os impactos atingem turismo e gestão costeira: só em Quintana Roo, em 2021, foram recolhidas cerca de 38 mil toneladas de alga, o dobro de 2020. Em 2023, a Associação de Hotéis de Cancún gastou mais de 20 milhões de dólares com limpeza, mostrando a dimensão do problema.
Quem transformou a alga em tijolo e como esse projeto começou?
O empreendedor mexicano Omar Vázquez, de Puerto Morelos, viu no sargassum uma oportunidade em meio ao caos de 2018, quando mais de 50 mil toneladas de alga sobrecarregaram a costa. Ele já atuava com viveiro de plantas e limpeza de praia para hotéis e decidiu testar a alga como base para um novo tijolo.
Sua história pessoal, marcada por três décadas sem casa própria nos Estados Unidos, ajudou a direcionar o foco do projeto para moradia popular. De volta ao México com poucos recursos, Omar criou os Sargablocks e construiu a primeira casa com o material para sua mãe, símbolo de superação e de acesso à habitação digna.
Confira um vídeo do canal Business Insider com detalhes da construção:
Como funcionam os tijolos de sargassum e quais são suas principais vantagens?
Os Sargablocks são tijolos ecológicos com cerca de 40% de sargassum moído, misturado com terra de canteiros de obra e água em uma fórmula sigilosa. A equipe coleta tonelada de algas ao amanhecer, seca, tritura, peneira e transforma tudo em uma pasta que é prensada em máquina simples.
A produção atual chega a milhares de tijolos por dia, e a versão final passou por vários protótipos até atingir resistência adequada a furacões do Caribe. Estudos indicam ainda bom isolamento térmico, ajudando a manter as casas mais frescas e reduzir o uso de energia em regiões quentes.
Qual é o impacto social e econômico das casas feitas de alga?
A empresa Vivero Blue Green integra viveiro de plantas, limpeza de praias, fabricação de Sargablocks e construção de moradias. Além de gerar emprego local, o projeto oferece casas de baixo custo e doa unidades para famílias vulneráveis, como pessoas que perderam tudo em furacões recentes.
Mais de 40 moradias já construídas
O uso de Sargablocks viabilizou a construção de dezenas de moradias, comprovando a eficiência e a aplicabilidade do sistema.
Cerca de 20 casas comercializadas
As unidades foram vendidas a preços acessíveis, ampliando o acesso à moradia digna para famílias de baixa renda.
Ao menos 15 moradias doadas
Parte das construções foi destinada à doação, beneficiando famílias em situação de vulnerabilidade social.
Mais conforto térmico e segurança
As moradias oferecem melhor isolamento térmico e maior sensação de segurança, impactando diretamente a qualidade de vida dos moradores.
Que futuro se desenha para o uso do sargassum no mundo?
O excesso de sargassum é ligado ao aumento de nitrogênio nos oceanos, vindo de fertilizantes, desmatamento e poluição, e já é monitorado por satélites. Com governos e hotéis gastando milhões em limpeza, cresce o interesse em modelos que convertam o problema em matéria-prima útil.
Iniciativas no México e em outros países já testam o uso da alga em papel, calçados, móveis e captura de carbono em mar profundo. A combinação entre reciclagem, geração de renda e inclusão social faz do sargassum um exemplo de como resíduos ambientais podem se tornar base para inovação e novas formas de morar.
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