Gustavo Nogy na Crusoé: Quem pensará quando já não pensarmos?
Com um prompt bem-feitinho, qualquer um produz sua própria salsicha
Um estudo da Confederação Internacional de Sociedades de Autor e Compositores (Cisac), publicado no dia 4 de dezembro, prevê que a adoção massiva de ferramentas de inteligência artificial generativa fará com que criadores da indústria fonográfica e audiovisual percam o equivalente a 116 bilhões de reais nos próximos cinco anos.
Muita gente tem sido e será demitida. Muita gente desaparecerá.
Músicos e produtores, escritores, roteiristas, artistas gráficos e tradutores já disputam o que sobra das sobras do mercado não mais com seus pares, mas com seus ímpares artificiais.
Dubladores também. Atores? Estamos quase lá (convenhamos, alguns são indistinguíveis de robôs).
E se chatbots aos poucos vão ocupando o lugar de amigos, cônjuges e terapeutas, quem se surpreenderá com um Jesus feito à imagem e semelhança da nossa IA?
Aqui e ali, grupos e movimentos tentam conter o tsunami algorítmico com as barricadas da boa intenção.
Conseguirão, no máximo, atrasar o processo por meio de processos judiciais que, cedo ou tarde, perderão.
No álbum-manifesto Is this what we want?, Paul McCartney se junta a centenas de outros músicos em “protesto contra a proposta de mudança da lei de direitos autorais proposta pelo governo britânico”.
O ex-beatle compôs a faixa-bônus para a versão em vinil do disco: 2’45” de ruídos.
Mas não é provável que álbuns-manifestos ou cartas abertas, ainda que assinadas por Nick Cave e Billie Eilish, Salman Rushdie ou George R.R. Martin, intimidem a fúria tecno-aceleracionista de neoprofetas como Sam Altman e Elon Musk.
O fim do mundo (de um certo mundo) veio pra ficar.
E o que fazer depois que o mundo acaba?
No atualíssimo ensaio A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, de 1935, o filósofo alemão Walter Benjamin observa que a possibilidade de se reproduzir tecnicamente as obras…
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