Brasília sempre se lambuzou; o Master é só uma indigestão
Parte da elite política e econômica do Brasil é podre. Até aí, nenhuma novidade. O diabo é que seus líderes são cada vez mais desprezíveis e têm tornado o país insustentável
Sim. Tudo em excesso faz mal. Até amor. Sanduíche de pernil da sogra na ceia de Natal, então, nem me fale. Se você, leitor amigo, leitora amiga, já teve ressaca de álcool, não imagina o que é ressaca de gordura de porco assado e pão molhado naquele caldo, reduzido em seis horas de forno baixo. Que Nossa Senhora do Troninho ajude os famintos, porque o Capiroto da Gula sempre faz sua parte.
Fato: não há país e sociedade, no mundo, imunes à corrupção, seja no setor público ou no privado. O que difere, contudo — e nos difere —, é a frequência, a voracidade e a extensão. Em Banânia, o apetite é pantagruélico; o alcance, amplo, geral e irrestrito, tal qual a Lei de Anistia que os golpistas e seus passadores de pano querem emplacar; e a frequência? Bem, como eu no banheiro durante o 25 de dezembro passado.
Desde a redemocratização, com o fim da ditadura militar, vivemos pulando de escândalo em escândalo. De novo: seja no setor público ou no privado. E se recordar é viver — e passar raiva —, bora lá: Coroa-Brastel, Anões do Orçamento, Marka-FonteCindam, Sanguessugas, Banestado, Mensalão, Brasilinvest, Petrolão, Americanas, INSS. Eu poderia gastar mais três ou quatro parágrafos, listando e intercalando um escândalo público e outro, privado.
Master problemas
A novidade no caso do Master é que, se antes a picaretagem restringia-se à esfera privada e a agentes públicos do Executivo e do Legislativo, sempre, claro, contando com a leniência do Judiciário e sua implacável sede por impunidade, agora, de forma inédita, atinge em cheio — por ora, aparentes suspeições – ao menos dois ministros do Supremo Tribunal Federal (STF): Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, cada um por um BO diferente.
O de Toffoli, por enquanto, refere-se a mandar para o Supremo as investigações relativas ao rombo do banco. O motivo: uma ligeira citação a um parlamentar, e só. Em seguida, a determinação de “sigilo máximo”; a carona em um jatinho, acompanhado do advogado do caso; a interferência na CPMI do INSS (no que tange ao Master); decisões que favorecem a defesa e uma curiosa, inédita e estapafúrdia acareação, marcada e desmarcada ao sabor dos ventos.
Já Xandão enfrenta um cenário de suspeição pública ainda maior, pois sua esposa, que é advogada, amealhou um contrato totalmente “fora da curva”, de 129 milhões de reais, para representar genericamente o banco. Além disso, segundo matérias veiculadas pela imprensa, o ministro manteve uma série de contatos — telefônicos e pessoais — com o presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galipolo, para indevidamente tratar do assunto. Mas o PGR, Paulo Gonet, acha tudo normal.
Master indigestão
Se no âmbito do Supremo — autoridade máxima de um Judiciário envolvido com relativa frequência em casos de suborno, nepotismo cruzado, vendas de sentenças e afins — a treta é bastante séria, ainda que hoje estejamos falando apenas de suposições e não de ilícitos concretos, no Congresso Nacional a situação não é melhor. Na Câmara e no Senado, a lista de parlamentares enroscados com Daniel Vorcaro, o dono do Master, é gigante.
Na esfera do Executivo, ainda não surgiu nada de estranho relativo ao caso, em que pese a “omissão criminosa” (popularmente falando) do Banco Central. Brasília, mais uma vez, mostra que é Brasília e nos brinda com outro show de horrores institucional, causando mais ira, desesperança e ressentimento em uma população prestes a jogar a toalha da defesa da democracia e a começar, senão a pedir, ao menos não lamentar uma ruptura institucional.
Parte da elite política e econômica do Brasil é podre, medíocre, delinquente. Até aí, nenhuma novidade. O diabo é que parte de seus líderes, já há alguns anos, é cada vez mais desprezível, e isso tem tornado o país insustentável. A exceção vem se tornando regra. Essa gente sempre se lambuzou, é verdade, mas o excesso está causando uma bela indigestão. Uma hora ou outra não haverá Engov que resolva e o caldo, literalmente, vai derramar.
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