Gustavo Nogy na Crusoé: Ninguém pode ler duas vezes o mesmo livro
Se tudo muda, mudam também os gostos e desgostos literários
“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, disse – em verso – Camões, que, dois versos depois, completou o raciocínio poético-existencial: “…todo o mundo é composto de mudança/ tomando sempre novas qualidades”.
E não é? Se tudo muda, mudam também os gostos e desgostos literários.
Reorganizando a desorganização da minha biblioteca, se é que esse ajuntamento de livros merece o honoris causa, encontrei o Ensaio sobre a cegueira, do único nobelizado em português, José Saramago. Cuja obra li de cabo a rabo e gostei. Até que, de repente, deixei de gostar.
Deixei de gostar daquela pontuação esquisita, daquele andamento excêntrico.
Avesso aos períodos curtos e aos pontos, com as vozes dos personagens mediadas por vírgulas e iniciais maiúsculas, sua prosa tem um efeito ondulante e meio enjoativo que, para alguns, é encantatório, para outros é chato.
Depois de achar encantatório, achei chato.
Muito bem, muitíssimo bem. Me peguei pensando sobre que direito temos de não gostar de alguém que entrou no cânone.
Se todos gostam, se todos dizem que é grande, se a Academia Sueca lhe concedeu o Nobel, como é que eu não vou gostar?
Quem sou eu para não gostar? Vergonha minha, decerto. Supõe-se que se você não gosta do português o problema não é do português. É seu.
Não é bem assim. Não é nada assim. Está liberado torcer o nariz para Saramago. Para ele e para os outros.
Seja qual for o escritor, grande ou pequeno, nacional ou estrangeiro, antigo ou moderno, nem todos agradam.
Sobretudo: nem todos são para nós. Um escritor nos diz coisas, e importa não só o que ele diz, mas como diz.
Deixo registrado que acredito piamente no cânone literário.
Explico: na ideia, muito divulgada pelo crítico Harold Bloom, de que existe um rol de livros e autores que sobreviveram às intempéries artísticas, que ultrapassaram a barreira das críticas, que se tornaram contemporâneos de si mesmos e que, portanto, são bons e grandes a despeito de nós.
Grandes livros e grandes autores…
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