Esse é o motivo da fiação elétrica do Brasil ser um caos completo
Ritmo atual de obras mantém cabos expostos até o ano 5025 em grandes cidades
Quem anda pelas ruas do Brasil já se acostumou a ver postes abarrotados de cabos, emaranhados de fios e “gambiarras” que parecem desafiar a lógica. Esse caos na fiação elétrica não é só uma questão visual: envolve dinheiro, segurança, leis, planejamento urbano e até a forma como o país pensa o próprio futuro das cidades.
Por que o Brasil ainda tem tantos fios expostos nas ruas?
Enquanto cidades como Paris e Nova York começaram a enterrar cabos há mais de um século, o Brasil segue com a maior parte da rede de energia, TV e internet pendurada em postes. Estima-se que apenas cerca de 1% da fiação brasileira seja subterrânea, o que deixa mais de 10 milhões de postes saturados de cabos de todos os tipos.
Em metrópoles brasileiras, o que se vê são verdadeiras teias: fios de energia, telefonia, internet, TV a cabo e até ligações clandestinas dividindo o mesmo espaço. Esse modelo se consolidou porque é mais barato e rápido de instalar, mas gera um cenário urbano poluído e vulnerável a ventos fortes, quedas de árvores e acidentes constantes.

Quanto custa transformar esse caos em fiação subterrânea?
Enterrar fios não é só uma questão de decisão política; é também uma conta pesada. Em média, 1 km de rede aérea custa entre R$ 100 mil e R$ 150 mil, enquanto o mesmo trecho subterrâneo pode sair de R$ 840 mil a R$ 1,7 milhão, dependendo da complexidade da obra e da região.
São Paulo é um exemplo emblemático: em bairros como a Vila Olímpia, o custo já chegou a cerca de R$ 5 milhões por quilômetro, com obras noturnas para reduzir o impacto no trânsito. Além dos cabos especiais isolados contra umidade e calor, é preciso construir dutos de concreto, câmaras técnicas e usar transformadores encapsulados, o que eleva o investimento.
Por que cidades como Paris e Nova York avançaram mais rápido?
Em termos de planejamento urbano, o contraste é nítido. Paris já enterrava redes desde 1910, e Nova York tem cerca de 86% de sua fiação subterrânea desde 1888. Na América do Sul, Buenos Aires proibiu novas redes aéreas em várias zonas a partir de 2005, priorizando o visual limpo e a segurança.
No Brasil, o cenário é o inverso: a maioria das cidades segue com cabos expostos, e São Paulo avança a passos lentos, enterrando por volta de 6 km por ano. Em comparação com a dimensão da malha de cerca de 20 mil km na capital, esse ritmo é considerado muito baixo.
Quer entender melhor esse problema? Veja um vídeo explicando tudo:
Quais são os riscos dos fios expostos e o que falta para mudar?
O impacto vai muito além da estética. Em 2024, uma tempestade em São Paulo deixou cerca de 2 milhões de pessoas sem energia e gerou prejuízos estimados em R$ 15 bilhões. Entre 2009 e 2024, foram registrados aproximadamente 36 mil acidentes ligados à rede elétrica, com ao menos 4 mil mortes associadas a situações envolvendo fiação.
Comparado à Europa, a diferença é grande: enquanto países europeus ficam, em média, apenas 12 minutos por ano sem energia, o Brasil soma cerca de 10 horas anuais de interrupções. Entre os fatores que explicam essa demora em mudar o cenário:
- Concessionárias focadas em resultados de curto prazo, com prioridade em lucros trimestrais em vez de planos de 30 anos.
- Políticos que evitam “obras enterradas”, menos visíveis ao eleitor do que reformas aparentes na superfície.
- Indústria nacional ainda pouco preparada para produzir, em grande escala, os materiais específicos para redes subterrâneas.
- Falta de continuidade de políticas públicas entre diferentes gestões, o que interrompe programas de longo prazo.
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