Roberto Reis na Crusoé: O mercado de chão de fábrica em campanhas eleitorais
Os operários, as abelhas, a mão de obra da eleição
O Brasil tem mais de 5,5 mil municípios. Algo em torno de 80% tem até 20 mil eleitores. São pequenos rincões, currais eleitorais espalhados pelo mapa.
Se fosse uma empresa, cada cidade seria um ponto de venda. Na prática, o ponto de venda pode ser um bairro, uma vila, uma comunidade, uma favela, uma rua, uma viela. O voto é o produto final. A seção eleitoral é a prateleira.
Grande parte do voto não nasce sozinho na cabeça do eleitor.
Ele é empurrado, induzido ou no mínimo orientado por uma liderança local: o vereador, o suplente que ficou na porta, o prefeito, o cara do sindicato, o pastor, o padre, o dono da associação de bairro, o conselheiro tutelar, o dono do botequim, o chefe da boca de fumo, a figura da juventude, o quadro do movimento estudantil.
Nem vou entrar no mérito da compra direta de voto. Eu repudio, mas sei que é uma festa de arromba no Brasil, que não pode ser descrita aqui. Vou ficar no método clássico e legal: o voto de influência pela liderança.
Cerca de metade do eleitorado chega na semana da eleição sem saber em quem votar para deputado, senador e, pasmem, até governador. Muitas vezes só lembra o número para presidente, e olhe lá. Para esse grupo, a liderança de proximidade vale ouro.
Como funciona a hierarquia
Pensa numa empresa. A etiqueta do crachá diz quanto você vale para esse sistema.
O sujeito que cuida de uma rua, conhece vinte casas e leva algo perto de vinte, quarenta votos, em época de campanha vale com folga algo próximo de cinco mil reais por mês. Ele trabalha, faz reunião, presta conta. Em tese, nada ilegal.
Acima dele está o coordenador.
O cara que junta 25 líderes de rua na mesma estrutura. Ele enxerga na mesa algo como quinhentos votos diretos e indiretos. Essa figura pode comandar bairro, região, zona rural, vila, favela, fábrica, igreja.
Em campanha, ganha 20, 30 mil por mês, às vezes mais, de acordo com o tamanho do curral. Gente que muitas vezes não tem nem escolaridade, fatura mais que muito diretor de pequena empresa no Brasil.
PS: a campanha oficial tem 45 dias. A pré campanha, que a lei finge que não vê, dura muito mais.
Como a lei só…
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