Dennys Xavier na Crusoé: Lula, Belém e a fantasia boteco-desenvolvimentista
É imperativo recusar a transformação da cidade em fetiche político
Há ocasiões em que a retórica política não apenas se afasta da realidade (o que é, na verdade, um pleonasmo): ela a ignora com desenvolta insolência e constrói, sobre ruínas, palácios abjetos de palavras.
Foi exatamente o que vimos quando o vosso presidente da República, em recente declaração pública, respondeu a um comentário crítico do chanceler alemão sobre as condições da cidade de Belém, capital do Pará.
A cidade, sede da COP30, teria promovido – numa expectativa óbvia para quem conhece o país em que vivemos – certo alívio civilizatório em jornalistas alemães ao retornarem às terras germânicas, o que bastou para acionar o modo “nacionalismo festivo” chinfrim da Presidência.
Com entusiasmo quase caricatural, português sofrível, chapéu branco e ar presidencial de quem acabou de sair de um filme da sessão da tarde, no qual Van Damme combate aos pontapés o crime em algum muquifo latino-americano, o presidente recomendou ao visitante europeu que experimentasse um boteco paraense, dançasse um carimbó e provasse a culinária local.
Finalizou com a hipérbole: “Berlim não oferece nem 10% do que Belém oferece”. Hipérbole, disse eu… para não dizer “sandice psicótica”.
A frase é emblemática do atual estágio da política brasileira: uma mistura de sentimentalismo, ufanismo e marketing que confunde afeto com infraestrutura, exotismo com bem-estar, e calor humano com indicadores sociais.
Sim, para Lula, Janja e congêneres, “amor”, “acolhimento” e “danças típicas” devem fazer parte das pesquisas de Indice de Desenvolvimento Humano: viva sob os auspícios de organizações criminosas, não conte com condições basilares de existência digna, mas vá para o bar, dance, peça um pratinho de comida da casa e celebre o país maravilhoso no qual você vive.
Não se trata de menosprezar Belém, e seria grotesco fazê-lo. Trata-se de recusar sua transformação em fetiche político.
De rejeitar a apropriação de uma cultura autêntica para fins de propaganda simbólica. Defender Belém é justamente exigir que ela seja mais do que folclore, mais do que vitrine, mais do que palco…
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