Uma nova pesquisa revela o que motiva um serial killer
Análise qualitativa do perfil de agressores sexuais revela que o ressentimento e a hipersensibilidade “motivam” tanto quanto o poder
Uma nova investigação sobre a psicologia de assassinos em série indica que eles são movidos por uma complexa interação sentimentos de superioridade e, ao mesmo tempo, de vulnerabilidade emocional. Publicado no Journal of Police and Criminal Psychology, o estudo analisou confissões e entrevistas de 45 criminosos nos Estados Unidos.
Os resultados contrariam a percepção popular, segundo a qual esses agressores têm, sempre e necessariamente, o ego inflado e o espírito calculista. Os delírios de grandeza e as maquinações sobre o domínio das vítimas dividem espaço psíquico com uma espécie de hipersensibilidade à crítica e um acentuado ressentimento social.
De acordo com os pesquisadores, havia uma lacuna importante na literatura de psicologia criminal, que tende a categorizar serial killers de acordo com suas motivações – o desejo de poder ou gratificação sexual, por exemplo –, ou foca apenas nos aspectos grandiosos do narcisismo.
O trabalho partiu de uma metodologia de análise de conteúdo qualitativa em documentos obtidos via pedidos da Lei de Liberdade de Informação (FOIA) a órgãos federais e departamentos de polícia estaduais. A amostra consistiu em 45 homens que cometeram assassinatos em série com motivação sexual nos EUA, entre 1960 e 2021.
Os psicólogos usaram modelos conceituais para codificar as declarações dos criminosos em quatro dimensões do narcisismo. Essas dimensões englobam tanto o lado grandioso (admiração e rivalidade) quanto o lado vulnerável (isolamento e inimizade).
Contrariando a expectativa inicial de que traços grandiosos dominassem o quadro, as indicações de narcisismo vulnerável apareceram em 89% das declarações analisadas. Traços de narcisismo grandioso estavam presentes em 87% da amostra.
O atributo mais comum identificado foi a “inimizade vulnerável”, caracterizada por profunda hostilidade, hipersensibilidade e fixação em rejeições ou desrespeitos percebidos (ou imaginados). Esse traço apareceu em 84% dos casos estudados. A admiração grandiosa, que implica uma busca por ser reconhecido como especial, foi o segundo traço mais comum, presente em 76% das declarações.
Interação e implicações para o perfilamento
Um achado é que as dimensões do narcisismo não ocorrem isoladamente. Houve uma forte correlação entre a rivalidade grandiosa, que envolve a desvalorização de outros, e a inimizade vulnerável. Cerca de 62% da amostra demonstrou ambos os traços ao mesmo tempo. Essa combinação sugere indivíduos agressivos na busca por superioridade, mas que também são reativamente hostis devido a um senso frágil da própria identidade.
A autora do artigo, Evangelia Ioannidi, explicou que a violência nesses casos é pessoal e alimentada pelo controle, uma vez que a vulnerabilidade atua em conjunto com a grandiosidade: “Sim, muitos mostram traços grandiosos, mas uma parte igualmente importante é o lado vulnerável – o ressentimento, a hipersensibilidade e a profunda sensação de terem sido injustiçados. Esses dois lados trabalhando juntos ajudam a explicar por que a violência deles é tão pessoal e alimentada pelo controle. Não se trata de desculpá-los; trata-se de entender que a psicologia por trás desses crimes é mais complexa do que as pessoas geralmente presumem”.
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