Dennys Xavier na Crusoé: O “isentão” que não era
Crônica de uma liberdade incômoda
Chamam de “isentão” aquele que recusa o coro, que não se veste com as cores do dia, que não levanta bandeira alguma além da sua própria consciência.
E fazem disso um rótulo pejorativo, como se a ausência de fanatismo fosse fraqueza, como se a recusa em aderir a qualquer uma das histerias disponíveis fosse covardia.
Mas talvez, no fundo, o que incomoda não seja a “isenção”, e sim a liberdade de quem não precisa de seita para saber o que pensa.
No imaginário político atual, parece que só há dois lugares possíveis: o altar do salvador ou o campo minado do inimigo.
Só há dois tipos de pessoas: as que gritam pelo bem e as que são o mal.
Nesse jogo tosco, quem opta por não jogar é tachado de amargo, frio, omisso – ou, pior, irrelevante.
O erro está em supor que a fala crítica do pensador é o silêncio travestido do covarde, quando na verdade é o recolhimento de quem não tem pressa para bater palmas.
Mas é justamente o “isentão”, esse personagem fabricado pelas redes e desprezado pelas massas bovinas, que pode ser o último sinal de lucidez numa sociedade que perdeu o amor pelo pensamento e se entregou ao conforto das certezas automáticas.
Ele não é neutro. Ele é livre. E, como toda liberdade, é desconcertante.
Não se trata de frieza, mas de prudência, de sensatez: coisas que não se encontram mais facilmente por aí.
Não é desengajamento, mas recusa em ser massa amorfa. Há quem escolha um lado porque refletiu.
Mas há, em número assustador, quem escolha porque precisa desesperadamente de pertencimento, como uma criancinha desolada, mesmo que à custa da verdade.
E é por isso que o “isentão”, no seu aparente isolamento, está muitas vezes mais presente no debate público do que todos os ativistas de grito pronto.
A verdade é que ser crítico neste país exige mais coragem do que ser militante. O militante tem grupo, aplauso, mantra, slogans.
O crítico tem apenas o incômodo de não caber…
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