Cinco livros que dissecam – e desmistificam – o cérebro
Estudiosos explicam as funções cerebrais e derrubam os conceitos pseudocientíficos que ainda persistem na cultura popular
A neurocientista Rachel Barr, autora de How to Make Your Brain Your Best Friend, recomendou ao Big Think cinco livros que considera fundamentais para desmistificar o conhecimento sobre o cérebro humano e promover, na medida do possível, uma compreensão científica do órgão que nos define e que ainda não conseguimos definir.
Um cérebro dividido ainda é um ou são dois?
Umas das obras indicadas por Barr é Tales from Both Sides of the Brain: A Life in Neuroscience, de Michael Gazzaniga, publicado em 2015. O livro é parte memória e parte revisão da pesquisa pioneira sobre o cérebro dividido.
Os estudos que deram origem à obra, conduzidos por Gazzaniga, Roger Sperry e Joseph Bogen na década de 1970, analisaram pacientes submetidos a calosotomias, um procedimento cirúrgico que consiste no corte do corpo caloso, área que conecta os hemisférios esquerdo e direito, e é geralmente realizado para tratar convulsões graves.
Os pesquisadores observaram que, quando incapazes de se comunicar, os dois hemisférios processavam informações e tomavam decisões de maneira independente. Isso levou alguns cientistas a propor a hipótese da “consciência dividida”, sugerindo que o cérebro abrigaria dois ou mais agentes conscientes.
Os achados também confirmaram a especialização de funções, como a linguagem (esquerda) e o reconhecimento facial (direita), em diferentes hemisférios. “Poucos estudos de laboratório reescreveram a filosofia, mas os experimentos de Gazzaniga sobre o cérebro dividido o fizeram”, disse Barr, que conclui: “Eles mostraram que, dentro de um único crânio, duas mentes podem discutir sobre o mesmo mundo. É um dos experimentos mais impressionantes da história da neurociência!”.
Outro tema complexo, que intriga filósofos, teólogos e cientistas, é a natureza da consciência. Em Conscious: A Brief Guide to the Fundamental Mystery of the Mind, de 2019, Annaka Harris oferece um panorama sobre o mistério, explorando ideias centrais do campo sob perspectivas científicas e filosóficas.
O livro não pretende dar respostas definitivas, o que é muito razoável, mas atualizar os leitores sobre os debates e sobre como o cenário pode evoluir com a chegada de novas tecnologias, como a Inteligência Artificial. Barr considera a obra uma leitura essencial para iniciantes que procuram respostas, pois “tem a coragem de não oferecer resposta nenhuma”.
Segundo a neurocientista, a autora “deixa as questões difíceis em aberto, mas fá-lo sem te deixar a implorar por um ponto numa névoa de subterfúgios socráticos. É um passeio claro e despretensioso pela consciência”. Com menos de 150 páginas, dá tempo de ler em uma tarde ou duas.
Corpo, história e novas perspectivas teóricas
O campo das neurociências muitas vezes ignora a relação entre o pensamento e a ação. A psicóloga Barbara Tversky, em Mind in Motion: How Action Shapes Thought (2019), mostra a importância da “cognição espacial”, que abrange as habilidades de processar informações ambientais para navegação e ação.
O cérebro é parte de um sistema nervoso completo que se estende por todo o corpo. As interações e os movimentos corporais criam percepções que estabelecem a base para o pensamento abstrato, sugerindo que o pensamento evolui em um ecossistema completo. Barr descreve Mind in Motion… como “um lembrete de que a cognição tem um corpo”.
Para além da cognição, as estruturas conceituais também estão em discussão. O neurocientista György Buzsáki, no livro The Brain from Inside Out (2019), propõe uma abordagem alternativa conhecida como “de dentro para fora”.
Essa visão contrapõe a estrutura predominante, chamada “de fora para dentro”, que entende que a complexidade do cérebro cresce à medida que absorve informações do mundo. Buzsáki argumenta que a complexidade cerebral é auto-organizada, derivada de uma rede de padrões pré-formados. A interação com o ambiente, por meio das ações, calibra esses padrões, permitindo a derivação de significado.
Segundo Barr, a leitura da obra de Buzsáki é uma “educação de primeiros princípios que aguça as suas intuições sobre a função e a ciência do cérebro”. O autor pretende que os leitores compreendam o cérebro como um criador de informação, e não apenas um processador de informações captadas.
Por fim, o zoólogo Matthew Cobb em The Idea of the Brain: The Past and Future of Neuroscience (2020) narra a história de como a humanidade tem compreendido o cérebro. A obra demonstra como as tecnologias de cada época moldaram o entendimento e as metáforas usadas para descrever o órgão.
Antes do Iluminismo, prevalecia o ponto de vista “cardiocêntrico”, de Aristóteles, que situava a inteligência e a consciência no coração, relegando ao cérebro a função de resfriar o sangue. Em outro momento, cérebros são comparados com relógios e, em nossa época, computadores.
Embora o médico vienense Franz Joseph Gall, com sua frenologia, tenha se enganado sobre as protuberâncias cranianas, ele avançou o conhecimento ao identificar diferenças funcionais entre a matéria cinzenta e branca.
Leituras à parte, o enigma persiste. Um dia compreenderemos o órgão que nos faz compreender? Os cinco livros indicados não esgotam o assunto, mas são um bom ponto de partida para que mais e melhores perguntas sejam feitas.
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