Pet também é gente? Famílias gastam mais com bichos de estimação

13.10.2026

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Pet também é gente? Famílias gastam mais com bichos de estimação
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Gustavo Nogy
6 minutos de leitura 14.10.2025 18:55 comentários
Cultura

Pet também é gente? Famílias gastam mais com bichos de estimação

Pesquisa detalha a transformação do mercado em torno de animais doméstico, que “reivindicam” status de membros da família

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Gustavo Nogy
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Pet também é gente? Famílias gastam mais com bichos de estimação

Foi-se o tempo em que cachorro servia para vigiar a casa e pouco mais do que isso. Com a mudança na dinâmica socioafetiva das famílias, o papel dos animais de estimação mudou – e mudou a ponto de mudar os hábitos, as rotinas e a própria economia em torno dos cuidados com os animais. Da complexidade da medicina veterinária às opções estéticas e de recreação, todo um ecossistema de produtos, serviços e estruturas foi criado e só tende a crescer.

O Brasil já é o terceiro país com maior população de animais de estimação, conforme levantamento realizado pelo Instituto Quaest em 2024. Paralelamente à queda no número de filhos por residência, que passou de uma média de 3,62 pessoas em 2003 para 2,8 em 2022, o número de pets cresceu. A razão alcançou 2,3 animais de estimação por domicílio no mesmo período. Entre 2002 e 2018, o percentual de famílias brasileiras que registravam gastos com animais de estimação quase triplicou. O índice saiu de 11,72% e atingiu 30,27%.

É o que revela um estudo da pesquisadora Clécia Satel, do programa de Pós-Graduação em Economia Aplicada da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, que analisou dados das Pesquisas de Orçamento Familiares (POF) referentes aos períodos 2002-2003, 2008-2009 e 2017-2018, demonstrou o crescimento do setor e o enquadramento dos pets como integrantes essenciais da família.

Expansão do setor e novos hábitos de consumo

A despesa total média com animais de estimação, ao considerar diferentes arranjos familiares, apresentou um aumento de 145%. O valor médio subiu de R$ 8,32 no período 2002-2003 para R$ 20,42 entre 2017-2018.

A maior parcela destes gastos foi destinada à alimentação e aos cuidados com a saúde dos animais. Serviços de higiene vieram na sequência.

Clécia Satel pontua que as despesas incluíram itens que antes não existiam ou não eram comuns: “Antigamente, os gastos eram praticamente com ração e medicamentos, e agora temos variedades de serviços e itens, desde roupas até petiscos que alimentam grandes indústrias”.

O aumento da despesa com plano de saúde para animais também chamou a atenção no último levantamento da POF (2017-2018). Este tipo de gasto não era expressivo na pesquisa realizada em 2008-2009.

O crescimento do setor pet não se restringiu às famílias de maior renda, mas também na classe média. Famílias com menor número de integrantes e maior renda tendem a possuir mais animais e direcionar mais recursos para alimentação e cuidados especializados.

O nível de escolaridade influencia o dispêndio: quando o chefe da família possuía título de mestre, o valor gasto com os pets chegou a R$ 88,41 em 2018. As regiões com as maiores rendas, como Sul, Centro-Oeste e o Estado de São Paulo, também são aquelas com maior gasto.

O mercado externo é outro indício da força do setor. As exportações brasileiras de ração para animais de companhia apresentaram um crescimento de quase 60% entre 2020 e 2024. Este resultado consolida o segmento como parte relevante do agronegócio nacional.

O fenômeno dos “pais de pet”

As transformações culturais e afetivas nos arranjos familiares refletem a nova posição dos animais na sociedade. Enquanto o “casal com dois filhos ou mais” teve uma redução de 10% entre 2002-2003 e 2017-2018, a estrutura familiar “casal” cresceu 114,2%, que refletiu em maior despesa mensal com pets em 2018.

Nas regiões mais abastadas, a pesquisa indica a ocorrência do fenômeno conhecido como “pet parenting”. Nesta dinâmica, os animais de estimação são tratados como membros da família, com alto nível de atenção, cuidado e investimento de recursos.

A pesquisadora Clécia Satel notou que casais que optam por adiar ou não ter filhos encontram nos animais uma companhia que demanda um compromisso diferente. A maioria das famílias entrevistadas relatou um forte vínculo emocional e melhorias no bem-estar cotidiano, proporcionadas pelos pets.

A evolução do consumo demonstra o foco em serviços que antes eram inexistentes. A diferença de gastos é acentuada em despesas não essenciais, concentradas em famílias com maior poder aquisitivo.

A pesquisadora detalha a mudança de rotina dos tutores que contratam serviços para os animais: “Muitos colocam o seu pet numa creche mensalmente – vão trabalhar, deixam o pet na cache e pegam no final do dia, semelhante a uma criança – e as despesas vão mudando”.

No ramo de higiene e estética, surgiram serviços como massagem muscular, banhos de creme e tonalizantes. A tendência cultural é de forte transformação, com empresas aéreas buscando acomodar os animais na cabine. A pesquisadora também aponta que algumas empresas estão começando a incluir o animal de estimação no plano de saúde dos funcionários.

A tese Despesas domésticas com animais de estimação no Brasil: evolução e determinantes está disponível on-line. Espera-se que a próxima POF, com lançamento previsto para 2026, revele um aumento ainda maior nas despesas devido ao crescimento do número de pets durante a pandemia.

Faz bem ter um pet?

De acordo com o presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Rio de Janeiro (CRMV-RJ), Diogo Alves, ter um animal de estimação pode ajudar na saúde mental: “Estudos apontam que pessoas acima de 65 anos de idade que têm um animal em casa têm 30% menos probabilidade de ir a médicos, em relação àquelas que não têm”.

Diogo Alves assegura que “brincar com cães, gatos e outros animais de estimação eleva os níveis de serotonina e dopamina, trazendo relaxamento, paz, calma e sensação de bem-estar para a gente” e, por consequência, já “há estudos comprovando que pessoas que eram hipertensas, depois de alguns meses com um animalzinho, tiveram uma queda considerável [da pressão alta] em comparação a quem não tinha o animal. O benefício é imenso”, disse em entrevista à Agência Brasil.

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