Boa gestão reduz fila e salva vidas em hospital público do RJ
Unidade de hemodinâmica da Uerj implementa métodos de engenharia e gestão da qualidade, aumenta em 46% o acesso e reduz de 27% na espera por tratamento de problemas do coração
O setor de hemodinâmica do Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe), pertencente à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), reorganizou internamente seus processos, adotou práticas modernas de gestão e engenharia, e isso resultou na ampliação do acesso ao tratamento de problemas cardíacos que requerem intervenção rápida e eficaz.
A ação foi implementada para enfrentar os desafios crônicos do sistema público de saúde e reduzir o risco de óbitos causados pelo infarto agudo do miocárdio. A intervenção demonstra que é possível ampliar significativamente os procedimentos realizados, ao mesmo tempo em que se reduz o tempo médio de espera em quase um terço.
O impacto das doenças cardíacas no Brasil
As doenças cardiovasculares representam a principal causa de morte global. Anualmente, cerca de 17,9 milhões de óbitos estão relacionados a essas condições, o que corresponde a 32% de todas as mortes no mundo.
No Brasil, a incidência de infarto agudo do miocárdio é significativa, gerando aproximadamente 400 mil casos a cada ano. A urgência do atendimento é fundamental, pois longos períodos de espera podem ser fatais para pacientes com suspeita de infarto.
Nesse cenário, os serviços de hemodinâmica são essenciais, pois oferecem intervenções rápidas. O cateterismo cardíaco e a angioplastia são exemplos de procedimentos capazes de tratar e diagnosticar obstruções coronárias de maneira ágil e eficiente.
Historicamente, o sistema público enfrenta obstáculos que comprometem o tratamento em tempo hábil. Esses desafios incluem a carência de leitos e a burocracia nos agendamentos. Além disso, a fragmentação dos fluxos de atendimento e as equipes sobrecarregadas geram gargalos. Tais fatores resultam em filas extensas, diagnósticos lentos e maior probabilidade de complicações.
O problema, conforme apontado pelo estudo do Hupe, transcende a falta de profissionais ou equipamentos. Embora esses fatores existam, a forma como os processos são organizados pesa consideravelmente.
A sobreposição de tarefas administrativas e a ausência de protocolos padronizados consomem tempo e energia das equipes. Tais obstáculos aumentam os custos do cuidado e reduzem a eficiência. A dificuldade, em muitos casos, não se limita à falta de verba. Trata-se, essencialmente, de uma questão de gestão que impede o paciente de receber o tratamento certo na hora certa.
Gestão de valor e métodos padronizados de engenharia
Para reverter o quadro, a equipe do Hospital Universitário Pedro Ernesto optou por uma abordagem focada em gestão. A estratégia adotada prioriza a geração de valor para o paciente.
Essa perspectiva segue a proposta dos especialistas Michael Porter e Elizabeth Teisberg, para quem o valor em saúde deve ser aferido pelos desfechos alcançados, considerando os custos totais do cuidado. A implementação no Hupe combinou a Saúde Baseada em Valor (VBHC) com técnicas de engenharia. O objetivo era transformar o cuidado cardiológico sem a dependência de grandes investimentos em infraestrutura.
Entre as ferramentas utilizadas estão a modelagem de processos e o Método de Identificação, Análise e Solução de Problemas (Miasp). Foram aplicadas ainda ferramentas da Teoria das Restrições e técnicas de gestão da qualidade.
O Time-Driven Activity-Based Costing (TDABC) foi usado para mensurar o custo e o tempo de cada fase do processo. Isso permitiu calcular o tempo de cada etapa do procedimento. Essa intervenção exigiu o mapeamento minucioso dos fluxos internos do setor. Também foi preciso identificar os pontos de estrangulamento e ajustar os protocolos existentes.
A coordenação dos leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) foi reorganizada. Além disso, foram estabelecidas rotinas para garantir que os pacientes chegassem à hemodinâmica com todos os exames prévios já concluídos.
Os efeitos das modificações foram rápidos e puderam ser mensurados. O estudo, cujos resultados foram publicados no International Journal of Healthcare Management, evidenciou o impacto positivo das mudanças. O número de pacientes que conseguiu acesso ao setor de hemodinâmica aumentou em 46%; a quantidade de procedimentos coronários realizados cresceu 43%. Em relação ao tempo de espera, a reorganização demonstrou eficácia na agilização do tratamento. O tempo médio de espera necessário para o paciente caiu 27%.
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Comentários (1)
MARCOS
03.10.2025 20:10DEMOROU MAIS DE QUARENTA ANOS PARA ESSA BOA NOTÍCIA. EM 1983 MEU PAI FEZ TRÊS PONTES DE SAFENA NESSE HOSPITAL E, AO NECESSITAR DE SANGUE, FOI CONTAMINADO POR HEPATITE. MORREU ANOS DEPOIS DE CIRROSE SEM NUNCA TER INGERIDO BEBIDA ALCOOLICA. O INFELIZ FOI CONTAMINADO NESSA ALA QUE HOJE É REFERÊNCIA.