Quando políticos “errados” fazem o certo
Uma análise das frases “se bolsonaristas estão a favor, eu sou contra” e “se o PT está contra, eu sou a favor”
O que mais quer um grupo político, sobretudo populista, é que você pense que ele está sempre certo e o adversário sempre errado.
A bússola moral de quem se deixa cooptar assim já não aponta para o que é realmente certo ou melhor para a sociedade (ou ainda, na perspectiva cristã, para o próprio Deus), mas para o que é melhor para o grupo político (que, não raro, finge representar Deus na Terra).
O “nós” vira a própria referência que norteia a moralidade, em oposição à referência de todos os males, conhecida como “eles”.
É dessa cooptação mental – estimulada por propagandistas que faturam com o adesismo a cada lado – que surgem frases como “se o PT está contra, eu sou a favor” e “se bolsonaristas estão a favor, eu sou contra”.
Mentes binárias
Com esse repertório típico de mentes binárias, não se concebe sequer que políticos podem estar contra algo errado, ou a favor de algo certo, por motivos errados.
Políticos podem, por exemplo, votar contra uma PEC que protege bandido não por combaterem a bandidagem, mas porque eles próprios já se julgam protegidos por juízes amigos.
Políticos podem, igualmente, votar a favor (assinando requerimento de criação) de uma CPMI que investiga roubo de aposentados não por combaterem a corrupção, mas porque a investigação desgasta o governo rival.
Ou seja: ninguém precisa compactuar com a motivação de políticos para ser contra algo errado ou a favor de algo certo, convergindo circunstancialmente com qualquer um deles.
Pressão da sociedade
A pressão moral da sociedade, quando impele e constrange políticos a fazerem determinada escolha certa, geralmente funciona não por levá-los a enxergarem a luz, mas, sim, a temerem o desgaste com a escolha errada.
Com o populismo, essa lógica se inverte: segmentos da população exercem pressão permanente pela vitória dos políticos “certos” e pela derrota dos “errados”, a despeito do teor da medida específica em discussão, bem como dos efeitos dela para o próprio segmento.
Como resultado, temos pessoas que defendem até a blindagem de todos os criminosos que sejam ou se tornem parlamentares, em nome da alegada proteção dos políticos de seu grupo – esses seres divinos, acima de qualquer suspeita.
Pilantragens
Aquelas mentes binárias ignoram que alguns petistas votaram a favor da PEC da Blindagem e de votação secreta para blindar parlamentar, juntamente com todo o partido de Jair Bolsonaro, o PL. Que o Novo, uma legenda com pautas de direita, votou integralmente contra a proposta. E que petistas e bolsonaristas já votaram juntos por muitas outras medidas que facilitam a impunidade, ou que turbinam fundos públicos para eles e seus partidos.
Entregar a própria orientação moral no mundo a populistas é cômodo, porque dispensa o esforço cognitivo que chateia quem tem preguiça ou dificuldade de pensar, além de gerar a sensação de pertencimento a um grupo virtuoso. Mas é justamente essa acomodação que corrompe os adesistas, tornando-os cegos, indiferentes ou até afeitos às pilantragens do seu lado.
Ter em mente que “se é certo, eu sou a favor” e “se é errado, eu sou contra” dá mais trabalho, porque demanda uma avaliação independente, alheia à referência da tribo. São duas frases órfãs do pai (ou do Pai, com P maiúsculo) que muitos procuram na política, como se ela não fosse um reduto eterno de padrastos abusivos.
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