Mosquitos geneticamente modificados bloqueiam transmissão da malária
Abordagem inovadora, com participação da USP, impede desenvolvimento do parasita e oferece nova estratégia contra a doença
Cientistas da Universidade da Califórnia, da Johns Hopkins University e do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP conseguiram desenvolver mosquitos geneticamente modificados capazes de bloquear a transmissão da malária. O estudo, detalhado na revista Nature, mostra como impedir o desenvolvimento do parasita Plasmodium falciparum no inseto, interrompendo a infecção antes de humanos.
Modificação genética interrompe o ciclo
A malária é transmitida por mosquitos do gênero Anopheles que se alimentam de sangue infectado, com o parasita Plasmodium completando parte de seu ciclo no inseto. A intervenção concentra-se em um gene do mosquito, o FREP1, que codifica uma proteína vital para o parasita atravessar a parede intestinal e alcançar as glândulas salivares. Cientistas introduziram uma variante natural deste gene, a FREP1Q, em mosquitos Anopheles stephensi.
Essa alteração genética dificulta a entrada do Plasmodium falciparum, a espécie mais grave da malária. Testes de laboratório confirmaram menores taxas de infecção e carga parasitária nos mosquitos modificados. A intervenção não afetou a longevidade ou a capacidade reprodutiva dos insetos.
Para disseminar a variante na população de mosquitos, empregou-se a técnica de “gene drive”. Esse sistema de impulso genético eleva a probabilidade de uma característica ser herdada de 50% para quase 100%. Em experimentos, a frequência da variante FREP1Q subiu de 25% para mais de 90% em dez gerações.
Parceria internacional e próximos passos
A participação brasileira foi liderada pelo professor Rodrigo Malavazi Corder, do Departamento de Parasitologia do ICB/USP. Ele contribuiu com modelos matemáticos, em colaboração com John Marshall, da Universidade da Califórnia, Berkeley, para entender a dinâmica de propagação da variante genética nas populações de mosquitos.
De acordo com Corder, ao Jornal da USP, “novos métodos de controle são necessários. Essas estratégias genéticas são promissoras pois podem reduzir a capacidade de transmissão sem ter que eliminar a população de mosquitos – o que tende a ser ecologicamente menos agressivo”.
Atualmente, o principal vetor da malária no Brasil é o Anopheles darlingi, predominante na região amazônica. Ainda não há dados sobre o efeito da variante FREP1 nesse mosquito específico, mas discussões preliminares para formar um grupo de pesquisa já estão em curso. O objetivo é investigar o potencial dessa mesma abordagem com mosquitos e parasitas locais.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) registrou mais de 260 milhões de casos e cerca de 600 mil mortes por malária globalmente em 2023. A incidência da doença manteve-se estável por uma década, apesar dos métodos de controle como mosquiteiros com inseticidas e diagnóstico precoce.
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