Verissimo, bravíssimo
Ele conseguia nos fazer rir e chorar no mesmo parágrafo, misturando realidade com deboche
Dentre tantos de meus péssimos hábitos, está o de – ao invés de acordar cedo e ir me exercitar ao ar livre – dormir até tarde nos fins de semana e feriados.
Pois bem. Higiene feita e café (almoço) tomado, me deparo com a primeira má notícia do dia: a morte de Luis Fernando Verissimo.
A bem da verdade, preciso confessar, já não me lembrava dele há muito tempo, e nem mesmo sabia que estava tão doente.
Ler é preciso
Eu nunca fui um devorador de livros. Os tenho a muitas dezenas na estante – o que é pouco, para algumas dezenas de vida.
Devo ter iniciado 98% deles e terminado, sei lá, 80%, mais ou menos. Mas não me pergunte quais. Aliás, não me pergunte nem os títulos e os autores.
Se eu não estiver diante de um (livro), irei levar tempo para me lembrar. Mas com um exemplar em mãos, localizo rapidamente o que desejo.
Coronavírus
Sempre tive uma péssima memória, que piorou depois da maldita covid. Não guardo nomes e rostos. Não guardo datas e eventos.
E fatos marcantes… Bem. Basicamente, cada dor e alegria com o Galo, algumas viagens transformadoras e o dia em que minha filha nasceu.
Eu comecei a trabalhar muito cedo e minhas metas eram “exatas”, não “humanas”. O tempo era integralmente dedicado a “crescer e aparecer”.
Sede de conhecimento
O que me ajudou a não ser um ignorante completo foi meu interesse por política e economia – e muita curiosidade por quase tudo.
De culinária a astrofísica, passando por filosofia e esporte, sempre me interessei em saber como, quando, onde e por quê?
Meu conhecimento geral foi moldado, desde cedo, pela leitura diária de jornais e revistas, já há algum tempo, substituída por conteúdos digitais primorosos.
Internet é vida
Sim, leitor amigo, leitora amiga. Há muita coisa legal em meio a tanto lixo eletrônico. Basta ser paciente e seletivo na busca.
E dentre tantos que me influenciaram ao longo da vida, certamente está esse gaúcho, tão colorado como sou atleticano.
Verissimo jamais saiu dos meus dias enquanto escrevia. Mas, como com os livros, não me peçam para citar um único artigo sem me mostrá-lo.
Tudo é TDAH
Livros que dele tenho e sei que li inteiros, com certeza, dois: O Analista de Bagé e As mentiras que os homens contam.
Deste último, me lembro de rir como louco, dentro de um ônibus em direção ao aeroporto de Guarulhos, por uma crônica que, claro, não me lembro.
Nunca busquei respostas para esse meu déficit de armazenamento. Provavelmente, diante da “epidemia” de TDAH, seria diagnosticado em grau máximo.
Outra sigla: FMB
Um de meus autores prediletos, por exemplo, desde o início dos anos 2000, é hoje meu chefe aqui no O Antagonista, o Felipe Moura Brasil.
Comecei a acompanhá-lo quando era um “Zé Ninguém” e jamais deixei de segui-lo, até ser brindado pelo destino e estar trabalhando ao seu lado.
Mas não peça para, de cabeça, citar um único artigo seu. Nem mesmo da semana passada. Ou dois, inclusive, que tive a oportunidade de comentar com ele.
Schopenhauer explica
Mas o tema não sou eu, minha falta de memória ou o Felipe. É Verissimo. Que morreu em decorrência do mal de Parkinson. Como meu pai, aliás.
Às vezes, inclusive, eu penso se essa minha característica cognitiva não é um indicativo futuro dessa porcaria de doença.
Mas schopenhaueriano clássico que sou, penso que vou morrer – na verdade, nem sei como ainda estou vivo – por causa de umas 250 doenças.
Voltando ao gênio
Eu não encontro mais – já há muitos anos – textos com o refinamento crítico e irônico de Luis Fernando Verissimo. Ele era de uma assertividade ímpar.
Conseguia nos fazer rir e chorar no mesmo parágrafo, misturando realidade com deboche. Tragédias se tornavam piadas em uma mesma linha.
Se eu pudesse voltar no tempo, estudaria jornalismo apenas para aprender as nuances técnicas da construção de textos como os dele.
Outro imortal
Recentemente, visitei o museu de Salvador Dalí em Figueres, na Espanha. Diante de uma obra, em especial, fiquei por muitos minutos, estático.
Maravilhado com a mensagem que me pareceu o artista querer passar, me ressenti por não entender patavinas sobre a técnica da pintura.
Tintas, cores, perspectiva, prisma. Como fazem algo, em 2D, parecer 3D? Por isso me ressinto não ter cursado jornalismo. Queria muito entender, tecnicamente, Verissimo.
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Comentários (5)
LuÃs Silviano Marka
30.08.2025 19:12Pra mim a melhor coletânea dele é "A Mãe do Freud". Genial.
LuÃs Silviano Marka
30.08.2025 19:11Uma amiga minha, dura de bêbada, viu o Verissimo no bar Barranco em Porto Alegre, foi lá apertar a mão dele e largou, "Eu schou tua fã deschde que li teu livro O Tempo e o Vento. Parabénsch, baita livro!!".
Marian
30.08.2025 19:10Com mais de 70 obras publicadas, deveria ter pertencido a ABL, mas parece que não basta ser um erudito e ter vasta obra, para merecer tal honraria. A injustiça é um pecado. Mas ficará o reconhecimento público, assim como nós, o povo, temos por Mário Quintana, Clarice Lispector e Graciliano Ramos, imaginem ! como exemplo dentre tantos escritores talentosos cuja obra é imortal.
Eliane ☆
30.08.2025 17:39Eu ainda tenho o livro:O analista de Bagé, em capa dura, com suas páginas amareladas pelo tempo.Eu digo ainda tenho, porque doei inúmeros livros e esse do Verissimo, fiz questão de eternizar na minha humilde biblioteca; comparada à do nosso FMB,que tem praticamente uma livraria.Eu repito: no site OA/Crusoé,têm os melhores artigos, com os melhores colunistas.Se elogiar é ser puxa-saco, então, sou puxa-saco de todos.Adorei seu artigo, quase uma crônica.
Ariadne
30.08.2025 15:07Fiquei triste também em pensar q não nascerá outro escritor como ele... Assim como não apareceu nenhum outro como o seu pai... mas ficaram os livros!!!