Orlando Tosetto Júnior na Crusoé: As sanções de Sansão
O pior que pode acontecer é pegar quatorze anos de cadeia e morrer nela de infarto só porque algum Sansão achou que nossas doenças são “migué”
Há quem confunda, neste mundão de meu Deus, sanção com Sansão. Principalmente por escrito.
Pela soma da homofonia com a pouca cultura letrada, sem dúvida, mas também porque há sanções com a pegada de Sansão – que era, na palavra do profeta Samuel, homem fortão.
O bom da gente ser anônimo – da gente ser, como dizia Brecht, o cozinheiro de César, ou um pedreiro da Grande Muralha da China, ou um anônimo acompanhante do noticiário – é que somos sancionados sem o peso de Sansão.
Pelo menos nós, os anônimos que não cometemos crimes hediondos, tipo passar batom em estátua ou exprimir aversão pelo nosso sacrossantíssimo Presidente e pela miríade de assombros que é o partido dele.
(Neste último crime eu jamais incorri. Aliás, jamais incorri em crime nenhum. É verdade que meu apreço pelo Presidente e pelo partidaço sumamente excelentíssimo dele, que despejam todos os dias graças incessantes sobre nós, não chega nem perto do de algumas jornalistas e ex-jornalistas da TV, mas os bons sentimentos estão lá, estão lá. Juro.)
Não: nossas sanções são brandas como brandos eram, sem dúvida, os dedos e as milongas de Dalila, e nossos castigos, leves e doces como eram, sem dúvida, os sussurros e gemidinhos de Dalila.
Nós, os medíocres da maldade e do vício, contamos – tal como os traficantes multimilionários, os corruptos vários e os assaltantes de velhos aposentados – com uma certa graça bonacheirona da parte dos sancionadores.
Calma, espera: os traficantes, os corruptos sortidos e os ladrões de aposentados contam com uma graça um pouco maior do que a nossa. Mas, mesmo assim, não nos queixemos.
Não nos queixemos! Não mordamos a mão que nos estapeia.
Para nós, o pior que pode acontecer…
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