Rodolfo Borges na Crusoé: Os donos da bola
Pelo jeito, o Flamengo vai se contentar em ser o “campeão moral” de torneios mundiais, sempre perdendo de igual para igual
Raymundo Faoro descreveu no clássico Os Donos do Poder uma sociedade na qual “em lugar da renovação, o abraço lusitano produziu uma social enormity, segundo a qual velhos quadros e instituições anacrônicas frustram o florescimento do mundo virgem”.
O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, deu um exemplo disso nesta semana.
Bap completou seis meses no cargo e os celebrou com uma entrevista à Flamengo TV.
O presidente rubro-negro falou sobre tudo, contratações, experiência na primeira Copa do Mundo de Clubes, etc, mas o que chamou a atenção mesmo foram seus comentários taxativos sobre as negociações para a criação de uma liga de futebol no Brasil.
“Sabe quando que eu vou aceitar que eu receba no máximo três vezes e meia mais do que quem é pequeno? Nunca. Nunca, não vai acontecer esse acordo nestas condições. Flamengo não será desapropriado, porque isso é um processo de desapropriação de um ativo que é nosso, por nenhuma razão, por nenhum mérito, nenhum critério que possa ser aventado, porque, no fim das contas, o discurso é lindo, mas, na prática, todo mundo vai ganhar dinheiro e o Flamengo, perder… Quer dizer, o Flamengo não vai ser tolo”, disse o dirigente.
História
Faoro trata, em seu clássico sobre a “formação do patronato brasileiro”, das estratégias para que o estamento burocrático mantivesse no poder uma mesma elite, importada do reino de Portugal, onde essa lógica e os subterfúgios que a sustentam foram gestados.
O Flamengo não é estatal, apesar do patrocínio histórico da Petrobras e, mais recentemente, do BRB, o Banco Regional de Brasília, cujo nome já sugere que havia algo de esquisita em anunciar em um time do Rio de Janeiro — e nem sequer a projeção nacional chega a explicar ou justificar o investimento de uma instituição pública regional em um time de futebol.
O clube de regatas tem o mérito de ter se tornado o mais popular do Rio de Janeiro — segundo Ruy Castro, graças, também, à rivalidade com o “estrangeiro” Vasco da Gama —, mas a projeção nacional ocorreu por acaso do destino, pelo fato de o rubro-negro estar na capital do país e ser transmitido para o Brasil inteiro pela emissora hegemônica.
“O passado tem, entretanto, suas próprias pautas, seu curso, embora não caprichoso, obra dos homens e de circunstâncias não homogêneas. O historiador, adverte um filósofo, elimina o elemento irracional dos acontecimentos, mas, nesta operação, cria uma ordem racional, que não só por ser racional será verdadeira”, diz Faoro.
De igual para igual
Os flamenguistas se animaram com a defesa peremptória de Bap…
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