Gustavo Nogy na Crusoé: A bola negou Pelé três vezes
Os três gols que ele não fez são mais importantes para a história – e para a estética – do futebol que a maioria dos gols feitos por outros craques
No dia 3 de junho de 1970, o Brasil estreia contra a Tchecoslováquia na Copa do México.
Em qualquer outro país, em qualquer outro planeta, a goleada de 4 a 1 seria festejada como prenúncio de que a seleção disputaria o título, e os rivais lamentariam seu azar como um bíblico Jeremias.
Mas o Brasil, no futebol daquele tempo, não era qualquer país; e Pelé não vinha do mesmo planeta que nós.
Pois os quatro gols passaram à história como notas de rodapé a um gol que não aconteceu: percebendo Ivo Viktor adiantado, Pelé chutou forte do meio de campo, por cobertura.
A bola percorreu cinquenta metros, fez uma indesculpável curva e saiu rente à trave, enquanto o goleiro trombava nela.
Nelson Rodrigues escreveu: “Foi um cínico e deslavado milagre não ter se consumado esse gol tão merecido”.
No dia 7 de junho de 1970, Jairzinho faria o único gol da vitória brasileira sobre a Inglaterra.
Mas o único gol feito será menos lembrado que um gol único que não foi feito: Pelé recebe cruzamento do próprio Jairzinho, salta com potência, suspende no ar a maior obra de engenharia esportiva que o mundo já viu e cabeceia para baixo, no canto.
A bola bate no chão, sobe e é interceptada por Gordon Banks, que nunca soube explicar como pôde reverter um destino que lhe parecia tão certo.
No dia 17 de junho de 1970, Tostão aciona Pelé, que se depara com o uruguaio Ladislao Mazurkiewicz.
Qualquer um tocaria de qualquer jeito possível. Pelé resolve que o melhor a fazer é não fazer, o melhor toque é não tocar.
A bola, obediente, mas sem compreender o raciocínio, passa entre os dois. O goleiro, como um budista que finalmente tivesse atingido a iluminação, se vê diante do absoluto nada.
Pelé faz a volta, reencontra o objeto de desejo, explica a ela o acontecido, ela enfim compreende suas segundas intenções, e chuta sem ângulo. Para fora.
Ao contrário de muitos, acho justo que se comparem os grandes do presente com os grandes do passado.
Vivemos o nosso tempo, adoramos os nossos ídolos…
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