O ditado latino que todo mundo deveria conhecer
Um pouso de emergência despertou em um cientista comportamental o senso de urgência da vida e a certeza da própria finitude
Uma experiência não muito agradável durante uma viagem de avião talvez fosse um momento improvável para qualquer tipo de epifania, mas foi isso que fez com que Danny Kenny, um cientista comportamental, se lembrasse de uma sentença latina que resume toda uma filosofia: “Memento mori”.
Ou, em português, “lembre-se de que você vai morrer”. Enquanto o piloto anunciava protocolarmente que tentaria um nada protocolar pouso de emergência, Kenny pensou: “Estou pronto pra morrer?”.
Mais do que fatalismo ou morbidez, a consciência da finitude pode servir como um catalisador para a autenticidade existencial, para uma retomada do senso do que verdadeiramente importa. O tempo é curto. Sobretudo: não sabemos quão curto é o tempo.
Filosofar é aprender a morrer?
A ideia de aceitar – e pensar – a mortalidade pode soar contraintuitiva na sociedade contemporânea, que obcecada com a ideia de longevidade, duração, juventude. Danny Kenny cita Tim Ferris e Ryan Holiday, dois best-sellers que, cada um à sua maneira, propõem que a perspectiva da morte deve ser reintegrada à vida.
Eu cito dois outros autores, um pouquinho mais antigos, que partiram de pontos diferentes para chegar a uma mesma (ou semelhante) conclusão: Sócrates (o suspeito de sempre) e Montaigne (o primeiro ensaísta).
O grego falante perambulava por Atenas perguntando coisas ao distinto público. Sobre a morte, disse uma coisa interessante, que tento reproduzir sem consultar o original: um filósofo deveria pensar em tudo, menos na morte. Porque a morte sequer é pensável. Enquanto estou vivo e penso, não há morte; quando a morte chegar, não estarei vivo para pensar em nada – nem mesmo nela.
Já Michel de Montaigne, depois de exercer algumas funções públicas, fez o contrário de Sócrates: recolheu-se aos seus aposentados, em uma torre no sudoeste da França e se pôs a pensar. E a escrever. De lá, bolou um novo gênero literário: o ensaio. E publicou um conjunto deles, 103, salvo engano, que intitulou de… ensaios.
Ensaios, tentativas, especulações. Ao contrário do colega ateniense, o francês defendia que “filosofar é aprender a morrer”. Para Montaigne, sendo a morte tão natural quanto a vida, e considerando que nossa espécie tem consciência do fato, chega a ser absurdo não pensar na morte todos os dias. Para se acostumar com ela. Para que ela se torne familiar.
Na turbulência, ninguém é ateu
Danny Kenny disse compreender que a aceitação da morte é uma experiência libertadora, e transforma a vida em um evento ainda mais precioso e digno de ser experimentado. Que tudo possa (e vai) acabar a qualquer momento faz com que qualquer momento seja insubstituível, irrecuperável, raro.
No artigo original em que ele comenta o incidente aéreo e faz suas reflexões, propõe uma listinha de tarefas ou atitudes que deveríamos cumprir para viver uma vida mais verdadeira. Não reproduzo aqui, porque me parece contraditório com a premissa assumida.
Mas o ponto continua válido: seja pensando nela todos os dias, seja pensando nela em dia nenhum, a morte continua a ser a questão fundamental da existência humana, porque dela dependem todas as outras questões que vêm a seguir: e depois? Haverá depois? Se houver, o que fazer antes?
Por isso, meu leitor, minha leitora, entre um choppinho e outro, logo de manhã, ao escovar os dentes, ou bem de tardezinha, voltando para casa, memento mori.
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Comentários (1)
Marcia Elizabeth Brunetti
12.07.2025 14:20Adorei seu texto. Volta e meia me pego nas mesmas divagações que você está fazendo aqui.