Uma estratégia possível no enfrentamento da depressão
Abordagem comportamental sugere que ações pequenas, mas contínuos, são mais importantes que grandes gestos ou tentativas
Ainda que afete milhões de pessoas em todo o mundo, a depressão é frequentemente mal compreendida. Embora um de seus sintomas, a anedonia, falta de (conseguir experimentar) prazer, seja o mais associado à condição, muitos indivíduos vivenciam a condição como uma sensação esmagadora de vazio ou ausência.
Essa percepção, de acordo com David Prucha, no Psychology Today, é como carregar um o mundo nas costas, o que faz com que até as tarefas mais simples, como escovar os dentes ou atender o telefone, um fardo. Ele sugere que, a crença de que apenas as grandes mudanças podem trazer alívio, é uma das armadilhas da condição, que nos induz à paralisia total.
Contudo, uma abordagem possível propõe que o caminho para a recuperação consiste na fragmentação das grandes metas em gestos ou atitudes ações pequenas, discretas, possíveis, um método que Prucha denomina “dividir por dois”.
Antes um pequeno passo que passo nenhum
A sensação de que a vida se resume a nada é uma manifestação comum da depressão, que, na perspectiva de Prucha, “divide por zero”, o que interdita qualquer iniciativa. No entanto, ele defende que essa “matemática” pode ser alterada. Em vez de buscar o tudo ou o nada, a estratégia é entregar o que é possível.
O princípio do “dividir por dois” implica reduzir as expectativas até encontrar uma ação realizável, não importa quão insignificante ela pareça para os outros. Por exemplo, se ir à academia é inviável, a meta pode ser uma caminhada curta; se isso ainda é muito, a vitória pode ser ir até a caixa de correio, ou até mesmo apenas à porta de casa.
Pesquisas em ciência comportamental reiteram a eficácia dessa metodologia, demonstrando que não são os feitos heroicos, mas sim os ganhos incrementais e contínuos, que gradualmente superam a inércia depressiva.
Conforme observa Prucha, uma maratona não erradicará a depressão, mas a simples ação de se levantar para tomar café da manhã pode ser um avanço significativo. Com persistência nessas pequenas ações, os limites internos tendem a se expandir, e a depressão começa a recuar.
Combatendo a autossabotagem
Um dos maiores desafios após iniciar a estratégia dos pequenos passos é a resposta da própria depressão, que se manifesta como uma voz interna de zombaria. Essa voz insidiosa questiona o valor de qualquer progresso, minimizando o esforço e desqualificando as conquistas. Essa é uma “tática” da depressão para sabotar o avanço, criando um ciclo vicioso: a ação é seguida pela vergonha, que, por sua vez, leva de volta à inatividade.
Para romper essa espiral, é preciso desenvolver a capacidade de contestar essa crítica interna, recusando que ela permaneça na mente. O progresso se acumula por “milímetros, não metros” ou “gotas, não litros”. A superação da depressão emerge da confiança nesses gestos aparentemente triviais.
Ao reconhecer a validade dessas pequenas ações, a influência da depressão diminui, o ciclo tende a ser quebrado, e a vida, que parecia ter colapsado, pode começar a se reestruturar. No fim, a “carga invisível” que pesava sobre os ombros pode ser percebida como um fardo que, finalmente, foi depositado aos pés.
Na dúvida, procure ajuda
É importante frisar que quaisquer pesquisas, teses ou conselhos, quando se trata de saúde mental, devem ser avaliados com critério. A subjetividade escapa às generalizações. Abordagens e teorias, sejam das linhas psicodinâmicas, sejam das vertentes cognitivo-comportamentais, são ferramentas, não são um fim em si mesmo.
Caso você sinta ou acredite sentir alguns dos sintomas associados à depressão, ou a quaisquer outras condições ou patologias mentais, procure ajuda profissional.
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