"O que sustenta a aproximação entre Rússia e China é a recusa da ordem liberal ocidental"

14.09.2026

logo-crusoe-new
O Antagonista
“O que sustenta a aproximação entre Rússia e China é a recusa da ordem liberal ocidental”
avatar
Alexandre Borges
6 minutos de leitura 06.07.2025 06:22 comentários
Mundo

“O que sustenta a aproximação entre Rússia e China é a recusa da ordem liberal ocidental”

Peter Frankopan, historiador britânico, mostra como China e Rússia usam mágoas coloniais e nostalgia imperial para enfraquecer a ordem mundial liderada pelo Ocidente

avatar
Alexandre Borges
6 minutos de leitura 06.07.2025 06:22 comentários 1
“O que sustenta a aproximação entre Rússia e China é a recusa da ordem liberal ocidental”
Imagem: IA por Alexandre Borges

O historiador britânico Peter Frankopan publicou neste sábado, 5, no Financial Times, artigo intitulado “China, Rússia e o abraço do ‘dragão-urso’”.

Frankopan, autor de best-sellers sobre história global, examina como a aproximação entre Moscou e Pequim se sustenta em narrativas históricas calculadas, que apresentam o Ocidente como agressor e eles próprios como vítimas ou redentores.

“Agora há mudanças que não acontecem há 100 anos. E quando estamos juntos, nós impulsionamos essas mudanças, disse Xi Jinping a Vladimir Putin, reforçando a ideia de que a parceria entre os dois países molda um novo momento geopolítico.

Segundo Frankopan, esse discurso é parte de uma tentativa de refundar a ordem mundial a partir de valores e interpretações que desafiam diretamente o papel dos Estados Unidos e da Europa.

Putin não mede palavras. Ao anunciar a anexação de regiões da Ucrânia em 2022, afirmou que “os países ocidentais dizem há séculos que trazem liberdade e democracia, mas em vez disso escravizam e oprimem”. E concluiu: “o mundo unipolar é falso e hipócrita do começo ao fim”.

A narrativa russa apresenta o país não como potência imperialista, mas como alvo do imperialismo ocidental.

Xi também tem insistido que “os países ocidentais liderados pelos Estados Unidos implementaram uma contenção total da China”, o que traria “desafios sem precedentes ao nosso desenvolvimento”.

Em discurso no Congresso Nacional do Povo, em 2023, afirmou que a China sofreu com “guerras frequentes e humilhações de potências estrangeiras que mergulharam o povo em um abismo de sofrimento”.

Essa versão dos fatos é apresentada como pano de fundo para a atual missão da China de reerguer sua grandeza histórica.

Quando a economia da Índia ultrapassou a do Reino Unido em 2022, Narendra Modi declarou que “superamos aqueles que nos governaram por 250 anos”, afirmando que a Índia havia “quebrado as correntes de milhares de anos de escravidão”. O ressentimento pós-colonial é explorado politicamente para justificar projetos de poder.

A retórica de cooperação entre Rússia e China sustenta um discurso idealizado. Xi e Putin afirmaram em várias ocasiões que a relação entre os dois países “não tem limites”.

Em 2024, Xi falou em uma amizade “eterna e inabalável”. Segundo Frankopan, essa união se baseia não em afinidade ideológica, mas em conveniência: “o que une os dois não é uma visão comum de mundo, e sim a tentativa de reescrever a história com temas semelhantes e linguagem parecida”.

As duas potências procuram se posicionar como alternativas ao Ocidente.

A Iniciativa do Cinturão e Rota é apresentada como herdeira das antigas rotas da seda, que, segundo Xi, “permitiram que diferentes povos florescessem, apesar das diferenças raciais, culturais e religiosas”.

Um documento do governo chinês descreve a iniciativa como “um pilar-chave da comunidade global de futuro compartilhado”.

A Rússia também revisa seu passado.

Em 2023, divulgou uma nova doutrina de política externa, definindo o país como “uma civilização única euro-pacífica com mais de mil anos de Estado independente”.

O texto afirma que Moscou tem “capacidade inigualável de garantir a convivência harmoniosa de diferentes povos”. Ignora, porém, que o império russo cresceu durante séculos com guerras e anexações, inclusive contra a própria China.

“Nosso país não se manchou com os crimes sangrentos do colonialismo”, escreveu Serguei Lavrov, ministro russo das relações exteriores, em artigo para leitores africanos. Mas o texto lembra que tratados como o de Pequim (1860) e o de Kulja (1851) representaram perdas humilhantes para os chineses, fatos hoje convenientemente esquecidos por ambos os lados.

Apesar da retórica de união, a desconfiança permanece.

Documentos vazados revelam que os serviços secretos russos alertam para o risco de espionagem chinesa, classificando a China como “o inimigo”.

Frankopan lembra que “a guerra da Ucrânia tem sido útil para Pequim”, que aumentou suas importações de energia com grandes descontos e obteve acesso a tecnologias militares.

Em 2024, o comércio entre os dois países chegou a 245 bilhões de dólares, um salto de 60% em dois anos. Mas há fissuras visíveis.

Feng Yujun, da Universidade de Pequim, escreveu que a Rússia quer “reconstruir um império e dominar a Eurásia”.

Criticou ainda o que chamou de hostilidade profunda ao mundo externo e desejo insaciável de expansão territorial”, enraizados na tradição russa e em sua ideologia religiosa messiânica.

Frankopan mostra que mesmo vozes nacionalistas russas, como Alexander Dugin, colhem reações negativas quando tentam sugerir superioridade russa sobre a China.

Dugin chegou a ser lembrado por usuários chineses como alguém que “já defendeu o desmembramento da China”. A animosidade é real, ainda que disfarçada.

Para Frankopan, o crescimento dos Brics e a retórica da multipolaridade refletem essa tentativa de criar um novo centro de poder global. “É da Ásia — e especialmente da região das estepes eurasianas — que surgiram 85% dos impérios com mais de um milhão de quilômetros quadrados da história”.

Esse passado de dominação serve hoje como referência para justificar ambições geopolíticas renovadas.

No fundo, afirma o autor, o que sustenta a atual aproximação entre Rússia e China é a recusa conjunta da ordem liberal ocidental.

Cada lado adapta o passado conforme suas conveniências, usa a história para justificar o presente e tenta construir um novo consenso global onde seus interesses prevaleçam.

Quem é Peter Frankopan

Peter Frankopan é historiador britânico, professor de história global na Universidade de Oxford e diretor do Oxford Centre for Byzantine Research.

Ganhou notoriedade internacional com o livro The Silk Roads, traduzido para mais de 30 idiomas. Especialista em conexões entre Oriente e Ocidente, Frankopan é uma das principais referências em geopolítica histórica e transformações globais.

  • Mais lidas
  • Mais comentadas
  • Últimas notícias
1

Uma rede de desinformação para Moraes

Uma rede de desinformação para Moraes
2

“Para os acusados do dia 08/01/2023, bastou tão pouco…”

“Para os acusados do dia 08/01/2023, bastou tão pouco…”
3

Frias defende patrocínio do Master a “Dark Horse”

Frias defende patrocínio do Master a “Dark Horse”
4

Dino diz ter dificuldade para dormir em meio à crise no STF

Dino diz ter dificuldade para dormir em meio à crise no STF
5

Fachin assume relatoria de caso que envolve Moraes e Vorcaro

Fachin assume relatoria de caso que envolve Moraes e Vorcaro
6

Vorcaro sugeriu usar proximidade com governo Lula como “marketing”

Vorcaro sugeriu usar proximidade com governo Lula como “marketing”
7

Lindbergh pede a Dino bloqueio de bens de Flávio Bolsonaro

Lindbergh pede a Dino bloqueio de bens de Flávio Bolsonaro
8

Churrascada, feijoada e vinho de R$ 6 mil: a relação entre Vorcaro e Castro

Churrascada, feijoada e vinho de R$ 6 mil: a relação entre Vorcaro e Castro
9

Fachin assume processos contra Jair e Eduardo Bolsonaro

Fachin assume processos contra Jair e Eduardo Bolsonaro
10

PF prepara envio de dados do celular de Vorcaro a ministros do STF

PF prepara envio de dados do celular de Vorcaro a ministros do STF
1

Dino diz ter dificuldade para dormir em meio à crise no STF

Dino diz ter dificuldade para dormir em meio à crise no STF
2

Uma rede de desinformação para Moraes

Uma rede de desinformação para Moraes
3

Lula sobre Flávio: “Nasceu no meio da milícia”

Lula sobre Flávio: “Nasceu no meio da milícia”
4

Fachin assume relatoria de caso que envolve Moraes e Vorcaro

Fachin assume relatoria de caso que envolve Moraes e Vorcaro
5

Fachin assume processos contra Jair e Eduardo Bolsonaro

Fachin assume processos contra Jair e Eduardo Bolsonaro
6

Dino retira sigilo de investigação sobre produção de ‘Dark Horse’

Dino retira sigilo de investigação sobre produção de ‘Dark Horse’
7

Vorcaro troca Banco Master por horta na Papudinha

Vorcaro troca Banco Master por horta na Papudinha
8

Figurinha de Trump e cobranças: PF detalha conversas de Flávio com Vorcaro

Figurinha de Trump e cobranças: PF detalha conversas de Flávio com Vorcaro
9

Lindbergh pede a Dino bloqueio de bens de Flávio Bolsonaro

Lindbergh pede a Dino bloqueio de bens de Flávio Bolsonaro
10

Caiado recebe alta após internação por pneumonia

Caiado recebe alta após internação por pneumonia
1

“Vassalo de Trump”: Renan acusa Flávio de receber financiamento de grupo dos EUA

“Vassalo de Trump”: Renan acusa Flávio de receber financiamento de grupo dos EUA
2

Vorcaro pede a Fachin para restringir acesso a mensagens pessoais

Vorcaro pede a Fachin para restringir acesso a mensagens pessoais
3

PF prepara envio de dados do celular de Vorcaro a ministros do STF

PF prepara envio de dados do celular de Vorcaro a ministros do STF
4

Bolo de coco com farofa crocante é opção fácil e deliciosa para o café da manhã de domingo

Bolo de coco com farofa crocante é opção fácil e deliciosa para o café da manhã de domingo
5

Figurinha de Trump e cobranças: PF detalha conversas de Flávio com Vorcaro

Figurinha de Trump e cobranças: PF detalha conversas de Flávio com Vorcaro
6

“Para os acusados do dia 08/01/2023, bastou tão pouco…”

“Para os acusados do dia 08/01/2023, bastou tão pouco…”
7

Tarot semanal: previsão para os signos de 14 a 20 de setembro de 2026

Tarot semanal: previsão para os signos de 14 a 20 de setembro de 2026
8

Rodolfo Borges na Crusoé: O opiário de Abel

Rodolfo Borges na Crusoé: O opiário de Abel
9

Dino retira sigilo de investigação sobre produção de ‘Dark Horse’

Dino retira sigilo de investigação sobre produção de ‘Dark Horse’
10

Uma rede de desinformação para Moraes

Uma rede de desinformação para Moraes

< Notícia Anterior

O segredo natural por trás da hidratação perfeita nos dias mais quentes

06.07.2025 00:00 4 minutos de leitura
Próxima notícia >

Os signos com maior facilidade para atrair prosperidade emocional e financeira

06.07.2025 00:00 4 minutos de leitura
avatar

Alexandre Borges

Analista Político em O Antagonista

Suas redes

Instagram

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (1)

ALDO FERREIRA DE MORAES ARAUJO

06.07.2025 19:23

A Rússia está caminhando para tornar-se um estado satélite da China ao romper os vínculos com a Europa.


Torne-se um assinante para comentar

Início

Seja nosso assinante

E tenha acesso exclusivo aos nossos conteúdos

Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e a Revista Crusoé.