"O que sustenta a aproximação entre Rússia e China é a recusa da ordem liberal ocidental"

29.10.2026

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“O que sustenta a aproximação entre Rússia e China é a recusa da ordem liberal ocidental”
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Alexandre Borges
6 minutos de leitura 06.07.2025 06:22 comentários
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“O que sustenta a aproximação entre Rússia e China é a recusa da ordem liberal ocidental”

Peter Frankopan, historiador britânico, mostra como China e Rússia usam mágoas coloniais e nostalgia imperial para enfraquecer a ordem mundial liderada pelo Ocidente

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Alexandre Borges
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“O que sustenta a aproximação entre Rússia e China é a recusa da ordem liberal ocidental”
Imagem: IA por Alexandre Borges

O historiador britânico Peter Frankopan publicou neste sábado, 5, no Financial Times, artigo intitulado “China, Rússia e o abraço do ‘dragão-urso’”.

Frankopan, autor de best-sellers sobre história global, examina como a aproximação entre Moscou e Pequim se sustenta em narrativas históricas calculadas, que apresentam o Ocidente como agressor e eles próprios como vítimas ou redentores.

“Agora há mudanças que não acontecem há 100 anos. E quando estamos juntos, nós impulsionamos essas mudanças“, disse Xi Jinping a Vladimir Putin, reforçando a ideia de que a parceria entre os dois países molda um novo momento geopolítico.

Segundo Frankopan, esse discurso é parte de uma tentativa de refundar a ordem mundial a partir de valores e interpretações que desafiam diretamente o papel dos Estados Unidos e da Europa.

Putin não mede palavras. Ao anunciar a anexação de regiões da Ucrânia em 2022, afirmou que “os países ocidentais dizem há séculos que trazem liberdade e democracia, mas em vez disso escravizam e oprimem”. E concluiu: “o mundo unipolar é falso e hipócrita do começo ao fim”.

A narrativa russa apresenta o país não como potência imperialista, mas como alvo do imperialismo ocidental.

Xi também tem insistido que “os países ocidentais liderados pelos Estados Unidos implementaram uma contenção total da China”, o que traria “desafios sem precedentes ao nosso desenvolvimento”.

Em discurso no Congresso Nacional do Povo, em 2023, afirmou que a China sofreu com “guerras frequentes e humilhações de potências estrangeiras que mergulharam o povo em um abismo de sofrimento”.

Essa versão dos fatos é apresentada como pano de fundo para a atual missão da China de reerguer sua grandeza histórica.

Quando a economia da Índia ultrapassou a do Reino Unido em 2022, Narendra Modi declarou que “superamos aqueles que nos governaram por 250 anos”, afirmando que a Índia havia “quebrado as correntes de milhares de anos de escravidão”. O ressentimento pós-colonial é explorado politicamente para justificar projetos de poder.

A retórica de cooperação entre Rússia e China sustenta um discurso idealizado. Xi e Putin afirmaram em várias ocasiões que a relação entre os dois países “não tem limites”.

Em 2024, Xi falou em uma amizade “eterna e inabalável”. Segundo Frankopan, essa união se baseia não em afinidade ideológica, mas em conveniência: “o que une os dois não é uma visão comum de mundo, e sim a tentativa de reescrever a história com temas semelhantes e linguagem parecida”.

As duas potências procuram se posicionar como alternativas ao Ocidente.

A Iniciativa do Cinturão e Rota é apresentada como herdeira das antigas rotas da seda, que, segundo Xi, “permitiram que diferentes povos florescessem, apesar das diferenças raciais, culturais e religiosas”.

Um documento do governo chinês descreve a iniciativa como “um pilar-chave da comunidade global de futuro compartilhado”.

A Rússia também revisa seu passado.

Em 2023, divulgou uma nova doutrina de política externa, definindo o país como “uma civilização única euro-pacífica com mais de mil anos de Estado independente”.

O texto afirma que Moscou tem “capacidade inigualável de garantir a convivência harmoniosa de diferentes povos”. Ignora, porém, que o império russo cresceu durante séculos com guerras e anexações, inclusive contra a própria China.

“Nosso país não se manchou com os crimes sangrentos do colonialismo”, escreveu Serguei Lavrov, ministro russo das relações exteriores, em artigo para leitores africanos. Mas o texto lembra que tratados como o de Pequim (1860) e o de Kulja (1851) representaram perdas humilhantes para os chineses, fatos hoje convenientemente esquecidos por ambos os lados.

Apesar da retórica de união, a desconfiança permanece.

Documentos vazados revelam que os serviços secretos russos alertam para o risco de espionagem chinesa, classificando a China como “o inimigo”.

Frankopan lembra que “a guerra da Ucrânia tem sido útil para Pequim”, que aumentou suas importações de energia com grandes descontos e obteve acesso a tecnologias militares.

Em 2024, o comércio entre os dois países chegou a 245 bilhões de dólares, um salto de 60% em dois anos. Mas há fissuras visíveis.

Feng Yujun, da Universidade de Pequim, escreveu que a Rússia quer “reconstruir um império e dominar a Eurásia”.

Criticou ainda o que chamou de “hostilidade profunda ao mundo externo e desejo insaciável de expansão territorial”, enraizados na tradição russa e em sua ideologia religiosa messiânica.

Frankopan mostra que mesmo vozes nacionalistas russas, como Alexander Dugin, colhem reações negativas quando tentam sugerir superioridade russa sobre a China.

Dugin chegou a ser lembrado por usuários chineses como alguém que “já defendeu o desmembramento da China”. A animosidade é real, ainda que disfarçada.

Para Frankopan, o crescimento dos Brics e a retórica da multipolaridade refletem essa tentativa de criar um novo centro de poder global. “É da Ásia — e especialmente da região das estepes eurasianas — que surgiram 85% dos impérios com mais de um milhão de quilômetros quadrados da história”.

Esse passado de dominação serve hoje como referência para justificar ambições geopolíticas renovadas.

No fundo, afirma o autor, o que sustenta a atual aproximação entre Rússia e China é a recusa conjunta da ordem liberal ocidental.

Cada lado adapta o passado conforme suas conveniências, usa a história para justificar o presente e tenta construir um novo consenso global onde seus interesses prevaleçam.

Quem é Peter Frankopan

Peter Frankopan é historiador britânico, professor de história global na Universidade de Oxford e diretor do Oxford Centre for Byzantine Research.

Ganhou notoriedade internacional com o livro The Silk Roads, traduzido para mais de 30 idiomas. Especialista em conexões entre Oriente e Ocidente, Frankopan é uma das principais referências em geopolítica histórica e transformações globais.

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Alexandre Borges

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Comentários (1)

ALDO FERREIRA DE MORAES ARAUJO

06.07.2025 19:23

A Rússia está caminhando para tornar-se um estado satélite da China ao romper os vínculos com a Europa.


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