Morre Clark Olofsson, o criminoso que “inspirou” a Síndrome de Estocolmo
Como um assalto com reféns a um banco sueco deu nomeou uma certa condição psicológica até hoje tida como controversa
Clark Olofsson, criminoso sueco cuja participação em um assalto a banco, em 1973, deu origem ao termo “Síndrome de Estocolmo”, faleceu aos 78 anos na Suécia. Internado para tratar uma doença não especificada, sua morte reacende o interesse sobre os complexos eventos daquele ano e o fenômeno psicológico que leva seu nome.
O sequestro e o protagonista
A notoriedade de Olofsson provém do assalto ao Sveriges Kreditbanken, em 23 de agosto de 1973. O assaltante Jan Olsson invadiu o local e, entre suas exigências, pediu a libertação e presença de Olofsson, criminoso então detido. Olofsson, uma vez no banco, assumiu a posição de negociador, enquanto quatro funcionários foram mantidos reféns no cofre por seis dias. Durante o cerco, um vínculo incomum formou-se entre captores e reféns.
A crise terminou com a rendição pacífica dos criminosos e a libertação de todos sem ferimentos. Kristin Enmark, uma refém, chegou a manifestar ao primeiro-ministro sueco sua confiança nos sequestradores e seu receio da polícia. Olofsson, com longa ficha criminal, cursou jornalismo enquanto preso, sendo libertado pela última vez em 2018.
A Síndrome de Estocolmo é real?
A chamada Síndrome de Estocolmo descreve a ligação emocional que vítimas podem desenvolver por seus agressores, mas o conceito é amplamente debatido e não há consenso. Christoffer Rahm, psiquiatra do Karolinska Institute, afirma que não é um diagnóstico formal, mas sim um mecanismo de defesa que ajuda a vítima a lidar com o estresse extremo.
Kristin Enmark, a refém que se envolveu emocionalmente com o criminoso, esclareceu em sua biografia que sua percepção de Olofsson como “salvador” era pragmática, voltada à sobrevivência, e não correspondia a uma espécie de atração, seja qual fosse. Enmark chegou a falar com o então primeiro-ministro sueco, Olaf Palme, ao telefone: “Acho que você está sentado aí jogando com as nossas vidas. Eu confio totalmente em Clark e no assaltante. Não estou desesperada. Eles não fizeram nada para nós. Ao contrário, eles têm sido muito gentis. Mas sabe, Olof, o que eu estou com medo é que a polícia ataque e cause a nossa morte”.
A professora Cecilia Åse, da Universidade de Estocolmo, observa que o conceito tem uma “dimensão de gênero”, usado para uma interpretação sexualizada das reféns. A própria polícia sueca reconheceu, mais tarde, que representou uma “ameaça real” aos reféns, influenciando suas reações, o que teria acentuado a percepção, mediante trauma, de que os criminosos eram os “mocinhos” no episódio.
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