Ataque a drones: Zelensky acerta os fundilhos de Putin com precisão cirúrgica
Putin previu uma espécie de blitzkrieg, ou guerra-relâmpago, mas ganhou um pântano longo e profundo, dificílimo de atravessar
Em 2022, quando as primeiras tropas russas cruzaram as fronteiras da Ucrânia, a previsão unânime nos círculos militares, diplomáticos e jornalísticos era de uma guerra-relâmpago. A superioridade bélica russa – em número de soldados, em equipamentos de combate e em ogivas nucleares e convencionais – parecia inquestionável. Mas o país invadido permanece de pé e em pleno vigor bélico. A história das guerras, para quem as estuda, ensina um padrão incômodo aos poderosos: o mais forte nem sempre vence. Ou vence, mas à custa de perdas financeiras e humanas jamais esperadas.
Em pleno domingo, 1º de junho de 2025, a Ucrânia lançou a operação Teia de Aranha, um ataque coordenado com 117 drones escondidos em caminhões civis. A ação atingiu cinco bases aéreas russas e destruiu ou danificou 41 aeronaves estratégicas, entre elas bombardeiros e aviões denominados “de alerta antecipado”. Essas aeronaves são parte central da dissuasão nuclear russa. O ataque, planejado por mais de um ano e meio, foi executado sob a supervisão direta do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, e do chefe do Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU), Vasyl Malyuk.
Mais do que dano material, a operação escancarou a vulnerabilidade estrutural da defesa russa e provocou revolta entre os próprios propagandistas pró-Kremlin. Não é a primeira vez nem será a última que um exército numericamente inferior impõe humilhações a uma potência militar. Os Estados Unidos, senhores de uma máquina de guerra colossal, foram derrotados no Vietnã por combatentes trajando chinelos, mal-equipados, mal-alimentados, organizados em túneis, praticantes de táticas arcaicas de guerrilha que simplesmente dissolveram a vantagem militar americana.
Lições históricas
A União Soviética, na década de 1980, como mais um belo exemplo, foi enxotada do Afeganistão por obstinados insurgentes montanheses, aboletados em cavernas, armados com velhas Kalashnikovs e mísseis Stinger fornecidos pela CIA e pela própria URSS, a despeito de potentes blindados, helicópteros e mísseis soviéticos. E Israel, um país minúsculo, cercado por vizinhos populosos, venceu sucessivamente as guerras da Independência (1948), dos Seis Dias (1967) e do Yom Kipur (1973), superando inimigos muito superiores em número de militares e em arsenal de guerra.
Mas a força assimétrica da tecnologia de Israel não se resume apenas às trincheiras nos desertos e vielas nas cidades. Em setembro de 2024, explosões simultâneas em dispositivos de comunicação (pagers e walkie-talkies) utilizados pelo grupo terrorista Hezbollah, no Líbano, eliminaram mais de 30 combatentes e feriram quase três mil. Os dispositivos haviam sido adulterados na origem, com explosivos ocultos, ativados remotamente por mensagens codificadas. A operação, atribuída ao Mossad, foi considerada a maior infiltração já realizada contra o grupo libanês.
Outro exemplo de supremacia tecnológica silenciosa israelense foi a Operação Stuxnet. Desenvolvido por Israel e Estados Unidos, um vírus de computador, descoberto em 2010, havia sido inserido anos antes nos sistemas de controle das centrífugas nucleares iranianas em Natanz. Stuxnet fez os equipamentos falharem progressivamente, inclusive girando em sentido contrário, danificando os mesmos e atrasando em décadas o programa atômico do Irã, sem que um único tiro fosse disparado. Foi o primeiro ciberataque da história a causar dano físico documentado em instalações militares.
Não aprenderam nada, não esqueceram nada
E há ainda o famoso caso de Mohsen Fakhrizadeh, então chefe do programa nuclear iraniano, eliminado em 27 de novembro de 2020 nos arredores de Teerã. A arma utilizada foi uma metralhadora de precisão máxima, controlada remotamente, via satélite, instalada em uma caminhonete estacionada. Os disparos foram feitos sem que nenhum agente israelense estivesse presente fisicamente. A operação, também atribuída ao Mossad, uniu reconhecimento facial, Inteligência Artificial (IA) – sim, já àquela época – e balística automatizada numa operação que pareceu ficção científica.
Estes episódios, em comum, mostram a capacidade de certas nações em transformar desvantagem numérica em estratégia de altíssima eficácia. Tanques e ogivas já não bastam. Guerras contemporâneas se vencem com adaptação, criatividade, tecnologia de ponta e inteligência – no sentido literal. A Ucrânia, sem marinha e exército significativos, sem aviação dominante, sem armas táticas e arsenais de longo alcance abundantes, desmontou o mito da vitória rápida e inevitável russa. Vencer ainda pode ser prematuro e quase impossível. Mas perder, como se vê, já não é um destino tão certo assim.
Putin previu uma espécie de blitzkrieg, ou guerra-relâmpago, mas ganhou um pântano longo e profundo, dificílimo de atravessar. Agora, assiste, impotente e raivoso, à destruição de parte de sua infraestrutura estratégica, incluindo aviões de dezenas de milhões de dólares, alvejados por adversários à distância, que ele subestimou e desprezou. O barulho que o tirano russo ouve não é só o dos drones. É o sussurro insistente e impiedoso da história: arrogância e superioridade, quando marcham juntas, costumam cair abraçadas. A Rússia, mais uma vez, experimenta uma dor perfeitamente evitável.
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Comentários (2)
Joaquim Arino Durán
03.06.2025 16:46Uai, é pra fica putin
MARCEL SILVIO HIRSCH
03.06.2025 08:58Parabéns à Ucrânia pelo brilho militar e parabéns ao Ricardo pelo brilho jornalístico.