Quer ficar mais inteligente? Exercite seu corpo
Pesquisas recentes indicam que os efeitos positivos da atividade física são de curto e longo prazos, e podem proteger o cérebro
A neurociência reforça a hipótese que, pelo menos desde Platão*, tem sido intuída ou confirmada por médicos, pedagogos, filósofos e cientistas: a atividade física é uma ferramenta poderosa não apenas para a saúde do corpo, mas também para o bem-estar e a capacidade cognitiva do cérebro.
Pesquisas recentes indicam que até mesmo uma simples caminhada pode desencadear mudanças químicas e estruturais no órgão pensante, melhorando o humor, a concentração e a memória.
O conceito de plasticidade cerebral – capacidade do cérebro de se modificar – é fundamental para entender como o movimento (corporal) molda positivamente nossas funções (mentais).
O banho neuroquímico e seus efeitos
Cada vez que nos movimentamos, nosso cérebro é inundado por uma mistura benéfica de neuroquímicos. Segundo a Dra. Wendy Suzuki, professora de Neurociência e Psicologia na Universidade de Nova York e especialista no tema, a combinação de dopamina, serotonina, noradrenalina e endorfina, ativada quando nos mexemos, é responsável pelos efeitos imediatos do exercício.
Apenas 10 minutos de caminhada já são suficientes para iniciar esse processo e promover benefícios emocionais. Além disso, a movimentação melhora a capacidade de focar e direcionar a atenção, funções ligadas ao córtex pré-frontal, e também otimiza o tempo de reação.
Isso tudo a curto prazo. O mais interessante é o que os exercícios regulares podem fazer por nós a longo prazo.
Atividades físicas não fazem crescer apenas músculos, mas também áreas como o hipocampo, essencial para a formação e retenção de novas memórias de longo prazo, e o córtex pré-frontal, vital para a capacidade de mudar e manter o foco da atenção.
O hipocampo é uma das poucas regiões do cérebro humano capaz de gerar novas células cerebrais na idade adulta – um processo auxiliado por esses fatores de crescimento liberados durante o exercício. Isso significa que a memória de longo prazo melhora com a atividade física regular. O córtex pré-frontal, embora não necessariamente gere novas células, vê o desempenho de suas células (axônios) aprimorado, o que se traduz em melhor função executiva.
A diferença entre um cérebro sedentário e um cérebro ativo consiste, em parte, nesse “meio neuroquímico” em que estão imersos. Suzuki explica que cérebros de pessoas ativas apresentam níveis mais elevados de dopamina e serotonina, mantendo um estado de humor basal melhorado.
Estudos conduzidos em seu laboratório mostraram que indivíduos sedentários, que praticaram exercícios cardiovasculares por 45 minutos, duas a três vezes por semana, por apenas três meses, experimentaram melhorias significativas no humor basal, na função pré-frontal e na função do hipocampo.
Para aqueles que já se exercitavam, a pesquisa indicou que “cada gota a mais de suor contou”, resultando em mais benefícios cerebrais.
O conceito de plasticidade cerebral é a base para essa transformação: o cérebro se modifica e se fortalece em resposta ao estímulo da atividade física, independentemente do nível de sedentarismo inicial.
Plasticidade cerebral, ansiedade e resiliência
A plasticidade cerebral não se aplica apenas aos efeitos diretos do exercício. Ela também é fundamental para abordar questões como a ansiedade e construir resiliência.
A ansiedade, definida como um sentimento de medo ou preocupação vinculado à incerteza, é uma emoção humana normal que existe em um amplo espectro, do cotidiano ao clínico. Neurologicamente, situações de ansiedade ativam a amígdala (ligada ao medo) e, em altos níveis, podem comprometer o funcionamento do córtex pré-frontal (que ajuda a acalmar e ordenar).
De acordo com a Dra. Suzuki, em vez de ver a ansiedade como algo a ser eliminado, podemos usar a plasticidade cerebral para “virar o jogo” e fazer bom uso dela.
Um exemplo é transformar a lista de “e se” – preocupações típicas de uma pessoa ansiosa – em uma lista de tarefas. Agir sobre as preocupações, mesmo que seja apenas planejando uma pequena ação, canaliza a energia da ansiedade para a produtividade.
Outro “superpoder” é o da empatia: reconhecer a manifestação de ansiedade que nos é familiar em outras pessoas nos capacita a oferecer uma palavra amável ou uma mão amiga, construindo conexão e compreensão.
O exercício e a meditação (que também demonstrou benefícios semelhantes aos do exercício para humor e foco) são citados como mecanismos de enfrentamento positivos, em contraste com vícios como álcool ou drogas.
A resiliência, a capacidade de suportar situações difíceis e sair delas mais forte, também é construída pela plasticidade cerebral. Exposição a dificuldades moderadas ao longo da vida, em vez de uma vida sem estresse, prepara melhor o cérebro para lidar com desafios futuros.
Cada vez que enfrentamos uma situação difícil e a superamos, ganhamos conhecimento psicológico de que somos capazes, fortalecendo nossa resiliência para o futuro. Cultivar uma “mentalidade ativa”, que é flexível e busca múltiplas perspectivas em vez de se fixar no viés de negatividade, também é uma forma de usar a plasticidade cerebral para lidar com a ansiedade e construir resiliência. Requer prática e a disposição de tentar novas abordagens em vez de repetir padrões antigos.
*Antes que me esqueça, no livro A República, Platão propõe um modelo pedagógico considerado ideal para a educação de reis-filósofos. Antes das atividades intelectuais, o filósofo grego recomenda fortemente as físicas. Filosofia? Sim. Mas ginástica também.
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