Após Pablo Marçal se tornar réu, os tais legendários que se cuidem
Essa história não é apenas sobre um lunático isolado. É sobre um sintoma. Vivemos a era dos charlatões da “alta performance”
Pablo Marçal, o bufão que acha que gritar, “Vai, destrava!”, resolve tudo, agora terá que destravar outra coisa: sua própria situação criminal, pois virou réu após a Justiça de São Paulo aceitar a denúncia oferecida pelo Ministério Público do estado. E não por difundir autoajuda tosca ou prometer riqueza infinita em sete passos, mas por colocar 32 pessoas em risco real de morrer congeladas no Pico dos Marins, interior de São Paulo, em janeiro de 2022. Um evento que parecia um culto de fé com adrenalina, mas virou caso de polícia.
Marçal, que se vende como guru da prosperidade, ignorou todos os alertas dos guias profissionais. Preferiu bancar o messias do YouTube, arrastando um bando de deslumbrados montanha acima em plena tempestade torrencial, vento cortante e visibilidade nula. O cenário era digno de desastre, mas ali estava o coach, desdenhando da prudência, chamando os mais precavidos de “covardes” e conclamando sua seita a segui-lo rumo ao que poderia ter sido um sarcófago coletivo de Instagram.
A denúncia do MP paulista é cirúrgica. Diz que Pablo Marçal “Assumiu o risco de produzir o resultado danoso” e “Exerceu influência direta sobre os participantes”, que, em êxtase, seguiram o mestre irresponsável sem contestar. Expôs todos “A perigo concreto e iminente de dano à integridade física”. Em bom português: colocou gente comum, despreparada, mal equipada e molhada até os ossos a um mísero passo da morte por hipotermia. Tudo porque não quis fracassar diante dos súditos que assistiam à sua live.
Ahu, ahu, ahu…
A Justiça até tentou resolver o fato com um acordo de R$ 273 mil em indenização por danos morais coletivos. Dinheiro de troco para quem se autoproclama multimilionário, vendendo e-book de superação como se fosse bula de baciada milagrosa em porta de rodoviária de cidade grande. Mas o coach, valentão, ignorou. Achou que dava pra vencer o Ministério Público na base do grito e da oração. Deu ruim. A juíza Rafaela D’Assumpção Cardoso Glioche não comprou o teatrinho de empoderamento e disse com todas as letras:
“O denunciado assumiu o risco de produzir o resultado danoso (…), mesmo com a presença de guias experientes alertando sobre os riscos”. E determinou que ele está proibido de repetir a palhaçada: nada de expedições e aventuras motivacionais sem autorização formal. Traduzindo: Marçal não pode mais brincar de Moisés – ou Rei da Montanha – sem a devida permissão do Estado. Mas essa história não é apenas sobre um lunático isolado. É sobre um sintoma. Vivemos a era dos charlatões da “alta performance”.
Gente que acredita bastar vestir uma camiseta preta – ou laranja -, falar com voz firme e repetir chavões de superação para atrair seguidores, não sem antes apelar a Cristo, pátria, família e amigos. Quando dá certo, viram fenômeno. Quando dá errado, viram caso de IML e polícia. Esse povo não é visionário. É inconsequente. Transformam um ambiente hostil da natureza em palco de egolatria. Não há nada de inspiração nisso. Há imprudência dolosa, vaidade homicida e irresponsabilidade revestida de hashtag. Um delírio messiânico disfarçado de jornada de autoconhecimento.
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Comentários (1)
Fabio B
21.05.2025 17:17Haja otário para essa quantidade de malandro.