Ancapistão nordestino? Moeda Social impulsiona comunidade de Maceió
Renda e comércio utilizam o “Sururote”, dinheiro social adotado pelos moradores da comunidade
Vergel do Lago, comunidade de Maceió, dependente da pesca na Lagoa Mundaú, está experimentando uma transformação econômica e social notável graças à implementação de uma moeda social local, o Sururote.
Essa iniciativa, administrada pelo Banco Laguna, o primeiro banco comunitário da capital alagoana, integra um projeto de economia circular que valoriza um resíduo antes desprezado: a casca do sururu. A proposta não apenas encontrou um novo uso para toneladas de resíduos que poluíam o bairro, mas também gerou renda significativa e estimulou o comércio dentro da comunidade.
Do resíduo à riqueza
Historicamente, a casca do sururu, um molusco abundante na região, era descartada após a retirada do filé, gerando cerca de oito toneladas de resíduos por dia que contribuíam para o mau cheiro e doenças no bairro. Em 2019, o Projeto Sururu nasceu com o objetivo de reaproveitar essas cascas, reduzindo o impacto ambiental e criando uma fonte econômica.
As marisqueiras, em sua maioria mulheres responsáveis pelo sustento de suas famílias, foram treinadas para secar e limpar as cascas, que são vendidas para indústrias. A receita gerada retorna para as marisqueiras, convertida em Sururotes pelo Banco Laguna.
Segundo Lisania Pereira, CEO da ONG Mandaver e presidente do Banco Laguna, uma pequena taxa de 10% da arrecadação se torna um fundo garantidor para créditos na comunidade. Este fundo, inicialmente impulsionado por um prêmio de empreendedorismo em 2022, permitiu a circulação de mais de 1 milhão de notas em três anos.
Um Sururote equivale a um Real, e só pode ser usado dentro da comunidade do Vergel. Essa restrição intencional garante que o dinheiro circule e fortaleça a economia local. Atualmente, a moeda é aceita em mais de 50 estabelecimentos cadastrados no Banco Laguna, que priorizou inicialmente locais ligados à segurança alimentar, depois farmácias e serviços de estética, à medida que a renda das marisqueiras aumentou.
Devido ao analfabetismo na área, cada cédula possui cor e desenho distintos para facilitar a identificação de seu valor, que varia de 50 centavos a 50 Sururotes, com as notas de maior valor (20 e 50) lançadas recentemente.
Impacto socioeconômico
O impacto do Sururote na vida das marisqueiras e no comércio local tem sido profundo. Antes do projeto, a venda apenas do filé do sururu rendia cerca de R$ 300 por mês às famílias. Com a inclusão da venda das cascas e a circulação da moeda social, a renda pode chegar a R$ 3.000, dez vezes mais.
Joseane dos Santos, marisqueira e uma das primeiras a acreditar na ideia, relata que a iniciativa mudou muita coisa no bairro, reduzindo o lixo e o mau cheiro, e permitindo que ela realizasse sonhos como comprar itens para sua casa nova, pagando com a moeda local.
O projeto beneficia diretamente e indiretamente cerca de 90 famílias. Além do aumento direto na renda, o Banco Laguna oferece microcrédito de até R$ 5.000 para expandir negócios locais, desde que o valor seja movimentado dentro do bairro.
Comerciantes confirmam que o Sururote alavancou suas vendas e os conectou a novos clientes, mesmo aqueles que antes não tinham despesas com água, luz ou gás em moradias irregulares.
Para além dos meses de maior renda, que coincidem com o verão, a movimentação da economia local gerada pelo Sururote se torna crucial, especialmente durante o período chuvoso entre maio e julho, quando o sururu morre devido à água doce na lagoa.
A meta é que o sururu continue sendo parte essencial da comunidade, mas que a área não dependa exclusivamente dele. Em 2025, até maio, R$ 25 mil foram arrecadados com a venda das cascas, com R$ 22,5 mil distribuídos às marisqueiras
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