Orlando Tosetto Júnior na Crusoé: Bom mesmo é o Zé Torcida
Como diriam os comentaristas de futebol: dogma é dogma, e vice-versa.
Dizem que o Brasil é o país do futebol, e que é por isso que temos um congresso de técnicos em cada boteco ou arquibancada.
Todos esses técnicos diletantes manjam horrores; só quem não manja nada são os patetas que treinam os times deles. Esses são idiotas, esses são incompetentes, são Professores Pardal.
Bom mesmo é o Zé Torcida lá com a sua latinha de cerveja, seu pratinho de salame picado e a sua indignação.
Aliás, indignação foi o que mais vi quando vazaram, dia desses, as fotos de uma possível segunda camisa nova da seleção, todinha de cor vermelha.
Os mais afoitos acham que é golpe da fabricante, que quer vender camisas pros dois lados do espectro político nas inevitáveis passeatas que virão no ano que vem – ano de eleição.
Se foi isso, tá na rede: golaço, golpe de gênio. Se não foi, dirão que é homenagem à seleção da pátria-mãe, Portugal.
Ou à da Espanha. Ou ao Liverpool. Ou a todos esses Américas que há por aí no futebol brasileiro. Desculpas não hão de faltar.
Mas não é disso que eu quero falar. Eu quero falar de como foi que a imprensa, qual os botecos que se enchem de técnicos de futebol, ficou subitamente cheia de vaticanistas depois da morte do Papa Francisco.
Quantos analistas e defensores da obra do finado pontífice apareceram! Quantos especialistas em catolicismo, quase todos não católicos, nem sequer cristãos, surgiram! Verdadeiro milagre.
Até porque, fora desses eventos traumáticos, tipo atentado e morte de papa, a imprensa costuma achar que o cristianismo é coisa de gente que oscila entre caráter ruim e mente débil.
A menos que o religioso seja ou diga coisas de esquerda: aí ele é bom. Mas é bom muito menos por ser religioso do que por ser ou dizer coisas de esquerda.
Insinuam, sem muito disfarce, que ele é melhor do que o seu credo. Foi talvez um pouquinho o caso com o Papa Francisco.
Mas é certo que a imprensa precisa fazer a lição de casa com relação ao catolicismo. Por mais que a deteste, se quiser falar da Igreja Católica, precisa falar direito.
Um jornalista da Folha de S. Paulo, por exemplo, disse que existe o temor (em quem?) de que seja eleito um papa “hiperconservador” que “restabeleça dogmas”.
O jornalista, evidentemente, não sabe nem o que são dogmas, nem quais são.
Se soubesse, saberia que nenhum dos 43 dogmas da Igreja foi revogado pelo papa Francisco.
Continuam todos em pleno vigor, da existência de Deus aos Novíssimos.
Saberia também que nem Francisco, nem nenhum papa antes ou depois dele, teve ou terá o poder de revogar um único dogma que seja.
Eles têm, sim, o poder de promulgá-los. Só. Uma vez promulgado um dogma, já era: ninguém abole, ninguém despromulga, ninguém desestabelece.
Como diriam os comentaristas de futebol: dogma é dogma, e vice-versa.
Ficam também debatendo quem tem chances de ser eleito no conclave. Quem está mais em linha com Francisco, quem está mais em linha com essa besteira de “hiperconservadores”.
Quem é da “nossa” patota e quem é da patota “deles”.
Não sabem que os papas não…
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