Dia mundial do livro, esse objeto não-identificado
As pessoas têm o direito de ler o que quiserem e, se não quiserem, que não leiam nada.
Consta que no dia 23 de abril de 1616 morreram o cronista peruano Garcilaso de la Vega, o dramaturgo inglês William Shakespeare e o romancista espanhol Miguel de Cervantes. A coincidência inspirou a escolha dessa data pela Unesco para representar o simbólico “Dia do Livro”. Resultado: estafados professores e professoras do ensino fundamental obrigando a criançada a fazer desenhos no sulfite, recortes na cartolina, esculturas na massinha, para celebrar o aniversariante.
O livro continua a ser um objeto não-identificado que preocupa autoridades. É mais fácil para alguns fazer amizade com um homenzinho verde, de olhos grandes e corpo pequeno, chamá-lo de João e convidá-lo para tomar um café, que reconhecer essa espécie de paralelepípedo de papel que tem, “hoje em dia, um amontoado de coisa escrita”, segundo um certo ex-presidente que nunca foi chegado na coisa (como este outro presidente, por sinal).
A sexta edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, divulgada no fim de 2024, aponta que 53% dos nossos compatriotas não leram nem mesmo parte de um livro nos meses anteriores à entrevista. Eles devem ter sido modestos: eu apostaria que não leram nem mesmo parte de um livro nos anos que antecederam a entrevista, considerando as encarnações anteriores.
Dos que leram ou dizem ter lido, muitos leram livros religiosos, de autoajuda e de realização financeira – além, é claro, dos obrigatórios para o vestibular. Os números não são animadores. A leitura é vista como ferramenta para conquistar alguma outra coisa ou é instrumento de tortura contra alguém. Ler por ler, ninguém ou pouca gente quer.
Não sou um apóstolo da leitura. Não defendo que ler deveria ser um hábito esperado, um gesto moral, um ato civilizatório. As pessoas têm o direito de ler o que quiserem e, se não quiserem, que não leiam nada. Melhor não ler que ler certas porcarias. A leitura é um vício esquisito, que nunca foi muito praticado e continuará não sendo. Seja como for, para quem porventura tiver interesse no negócio, nunca é tarde. Conheço uns lugares, sei de uns fornecedores, produto de primeira. Por enquanto não é proibido, mas se apressem.
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Comentários (1)
João Darcy da Rocha Júnior
23.04.2025 17:41Excelente artigo. Infelizmente tenho que dizer que o colunista está cem por cento correto. Quem gosta de ler tem que sustentar o vício enquanto pode.